Quanto vale a carne fraca?



Comecemos pelo fim. Comecemos pela lição. “Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, conforme o pensamento atribuído a Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

Em dias tão conturbados, é assim que nos sentimos, compelidos a manter a esperança diante de situações que produzem medo, desconfiança e ressentimento.

Quem acessa os portais noticiosos, lê notícias alarmantes. Governos de diversos países anunciam severas restrições à importação da carne brasileira.

A crise é resultado da operação da Polícia Federal que encontrou irregularidades em procedimentos de vários frigoríficos e indícios do pagamento de propina a fiscais do setor agropecuário.

No fim da semana passada, as duas gigantes do setor, empresas de capital aberto com ações na bolsa, perderam R$ 6 bilhões.

Levando em consideração a matriz insumo-produto do IBGE, os economistas da GO Associados avaliaram o dano potencial do escândalo.

Uma eventual redução de 10% das exportações de carne provocaria uma redução de R$ 13,9 bilhões na produção, de R$ 2,3 bilhões na massa de salários, de R$ 1,1 bilhão na arrecadação e a possível perda de quase 420 mil postos de trabalho.

Neste momento, a fim de reduzir danos, é necessário que as instituições públicas e privadas aprofundem as investigações, apurem tecnicamente as análises, punam os responsáveis pelas irregularidades e constituam canais transparentes de informação sobre o assunto.

Também é importante que se proteja a grande maioria de produtores corretos, honestos e empenhados que atuam neste setor. Um dado é fundamental: até agora, entre 4,837 mil plantas industriais em operação no país, 21 podem ter cometido irregularidades.

Nestas situações, sentimos o quanto nossos sistemas de trocas são vulneráveis e quão desastroso pode ser o erro de qualquer integrante de uma plataforma produtiva.

A professora Brené Brown, da Universidade de Houston, tem dedicado sua vida acadêmica à pesquisa sobre vulnerabilidade, coragem, autenticidade e vergonha.

Suas conclusões, curiosamente, podem lançar alguma luz sobre o problema em pauta, especialmente quando criamos dúvidas até sobre o alimento que servimos em nossas mesas.

Segundo ela, a vulnerabilidade não é fraqueza, mas a disposição que temos para encarar a incerteza do cotidiano. Desse ponto de vista, a vulnerabilidade é o berço da inovação, da criatividade e da mudança.

Quando nos sentimos vulneráveis, acordamos do comodismo e do entorpecimento gerado pela alienação. Tomamos coragem para criar algo que não existia, adaptamo-nos e trabalhamos para gerir a mudança. Brené tem razão.

No mundo atual, que tende à descentralização, será cada vez mais necessário o aperfeiçoamento de modelos de compliance que possam se estender a toda a cadeia produtiva.

Em qualquer setor, não adianta erguer uma magnífica central tecnológica de processamento se os fornecedores continuarem operando de forma arcaica.

Não há moda elegante e sustentável se a mão de obra que abastece a marca comercial ainda for submetida a situação de miséria, análoga àquela da escravidão.

Muitos dos grandes conglomerados empresariais olham hoje muito para frente, para a plateia de clientes e consumidores. Centram esforços em marketing, distribuição e vendas.

Hoje, porém, consideradas as exigências de uma produção responsável, precisam olhar também para trás, dialogar com seus parceiros e eleger regras e regulamentos que garantam uma operação limpa, regulada e honesta.

Não basta que as empresas tenham planos de contingência e desenvolvam campanhas midiáticas de blindagem da imagem corporativa.

É necessário que cuidem do jardim da frente, mas também do porão e do quintal nos fundos da propriedade, territórios que se mantêm afastados dos olhares curiosos.

Se a carne é mesmo fraca, vale mais a mudança de paradigma proposta pelo espírito dos justos. Ou não?!

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 21/03/17