Quando é preciso desconfiar dos números?



Como professor, costumo advertir aqueles alunos que menosprezam ou maltratam os números enquanto procuram graduar-se em Administração.

Sem dúvida, trata-se de uma ciência essencialmente humana, mas a validação científica de qualquer tese depende sempre de provas matemáticas.

No campo dos negócios, sem a “conta” correta, desperdiçam-se a criatividade, o carisma e a competência técnica do empreendedor. Ignore os números e você certamente acumulará prejuízos.

Em um mundo marcado por rápidas mudanças, necessitamos consultar números o tempo todo. Eles indicam o que está sendo alterado, por quem, de que forma e em qual ritmo.

No entanto, em quais números devemos efetivamente confiar? Recentemente, o Brasil se alarmou com as denúncias relativas a irregularidades no processamento e distribuição da carne. E o que aprendemos com esse episódio?

Em primeiro lugar, que temos de aprimorar controles e fiscalizações. Depois, que é preciso punir quem descumpre a lei. Por último, que o olhar da escala comparativa é fundamental à análise de qualquer número.

De 4,8 mil empresas do setor, 21 efetivamente apresentavam problemas. E, dessas, nem todas comercializavam produtos que ofereciam algum risco à saúde do consumidor.

De novo, é bom repetir. É um absurdo que tenhamos de nos preocupar com a carne que levamos à mesa da família. Mas também é uma pena que produtores honestos e corretos sofram pelas falhas de 0,4% dos integrantes dessa rede produtiva.

Números fazem com que lidemos de forma mais apropriada com a realidade. Porém, podem também nos iludir e imobilizar.

Questionar números e estatísticas tem sido a principal ocupação de Mona Chalabi, especialista que colabora com a Transparência Internacional e com o jornal The Guardian. Seu trabalho visa a depurar dados para que as pessoas se informem adequadamente e possam evitar decisões equivocadas.

Semanas atrás, ela ministrou uma palestra sobre o tema. O vídeo produzido na ocasião está disponível na Internet e já foi assistido por mais de 400 mil pessoas.

Segundo ela, há um problema no campo das pesquisas. Nem sempre os estudos selecionam amostras realmente representativas da população. Outro ponto de adulteração: as pessoas consultadas, por medo ou vergonha, podem mentir. E, com frequência, mentem, muitas vezes de maneira bem convincente.

Mona chama atenção também para os desvios característicos da divulgação de dados. Ela cita uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, em 2015. Na consulta, 41% dos muçulmanos declaravam apoiar a jihad (popularmente entendida como “guerra santa”), o que parecia um dado assustador.

Os jornalistas que expuseram o estudo, no entanto, ignoraram outra pergunta importante formulada aos entrevistados: “como você define a Jihad?”. A maioria a definiu como “a luta pessoal e pacífica do muçulmano para ser mais religioso”. Apenas 16% a consideraram uma “guerra violenta contra os infiéis”.

Pesquisas são, portanto, cruciais nos modernos processos decisórios. Seus números podem ajudar, por exemplo, a aprimorar um produto ou serviço. Ajudam igualmente a fornecer balizas para que um governo elabore programas para reduzir a fome, o desemprego ou o consumo de drogas.

No entanto, se mal elaboradas, mal interpretadas ou mal divulgadas podem gerar enormes malefícios, confundindo estrategistas de negócios e enganando gestores públicos.

Pensando em construir soluções responsáveis neste campo, associei-me a Renato Meirelles no Instituto Locomotiva. Mais do que analisar números (e nos especializamos em fazer isso com minúcia e perícia), pretendemos registrar e compreender o pensamento das pessoas.

Em nossas pesquisas, como as mais recentes sobre o universo da mulher, trabalhamos para mostrar que efetivamente existem pessoas e histórias atrás de cada número.

O objetivo é transformar o resultado de cada pesquisa em conhecimento e estratégia, ampliando as possibilidades de empresas e instituições, de modo que se construa uma conexão entre elas e seus públicos.

Falamos com as pessoas, com aquelas que precisam ser ouvidas, na quantidade necessária, na geografia apropriada, moldando com extremo rigor cada pergunta. Porque é assim que se constitui conhecimento confiável. Porque é assim que detectamos tendências e apontamos caminhos de evolução para marcas e organizações.

Portanto, leia números. Se não souber, aprenda. Desconfie deles, sempre. Procure saber o que representam, como foram obtidos e como estão sendo divulgados.

Exercite-se neste processo de construção permanente do conhecimento. Vai fazer de você uma pessoa mais preparada para lidar com a realidade e mais capaz de planejar o futuro.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 28/03/17