Qual perigo nos reserva o avanço tecnológico?



Quanto mais se aprofunda o debate, mais ele se torna complexo. É o que ocorre com as questões mais importantes da religião, da política e, certamente, da ciência aplicada à tecnologia.

No início do Século 19, um grupo de trabalhadores ingleses reagiu violentamente à mecanização do trabalho, uma das bases da Revolução Industrial.

Os chamados luditas invadiram fábricas, arrebentaram equipamentos e distribuíram panfletos nos quais acusavam os industriais de produzir máquinas que roubavam empregos humanos e, assim, provocavam desespero e pobreza.

Essa insurreição moveu multidões, mas fracassou. Com o correr dos anos, percebeu-se que as máquinas podiam reduzir o sofrimento laboral, gerar extraordinários benefícios materiais, multiplicar a riqueza e, de quebra, estender o tempo da vida humana.

O medo, no entanto, sempre retorna à pauta. Porque somos biologicamente frágeis e, desde tempos muito remotos, desconfiamos de qualquer mudança.

Uma alteração no clima podia comprometer a colheita e matar de fome metade do clã. A doença do filho do vizinho podia indicar que uma epidemia devastaria o povoado.

Hoje, até entre os inovadores, há quem tema, por exemplo, o desenvolvimento da inteligência artificial. Será que nos tornaremos escravos de robôs espertos e tiranos? Será que seres híbridos evoluídos comporão uma nova raça, que nos controlará e oprimirá?

Em 1997, o gênio Garry Kasparov, uma espécie de Pelé ou Messi do xadrez, perdeu uma disputa contra o supercomputador Deep Blue, da IBM. Ele admite que ficou chateado, mas que soube interpretar o episódio como um passo na evolução humana.

Recentemente, ele lançou o livro Deep Thinking, em que expõe suas ideias sobre o tema. Em sua visão, as máquinas podem processar rapidamente nosso conhecimento acumulado e potencializar nossa capacidade transformadora.

Um exemplo: um sistema de diagnóstico médico que analise milhões de casos de moléstias cardíacas. Essa mente artificial pode comparar sintomas, históricos, terapias e resultados. E será capaz, eventualmente, de sugerir o tratamento mais adequado a cada paciente.

Para Kasparov, as máquinas podem simplesmente indicar o que funciona melhor, sem a influência dos dogmas humanos. Elas descobrem as melhores soluções, longe de crendices, superstições, preconceitos ou tradições equivocadas.

Em entrevista recente à Fortune, ele resumiu seu pensamento: “nossas ferramentas nos tornarão mais inteligentes, permitindo-nos compreender melhor o mundo e nós mesmos”.

E concluiu afirmando que nosso desafio é gerir os serviços da inteligência artificial, propondo-lhe problemas que, solucionados, possam tornar a vida biológica mais produtiva, confortável e feliz.

O cientista da computação, inventor, futurista e escritor Ray Kurzweil não pensa de modo muito diferente. Ele lembra que, ao inventar um jeito de fazer fogo, o ser humano arranjou um modo de se aquecer, mas também de incendiar sua própria habitação.

Para Kurzweil, a tecnologia amplifica nossa capacidade criativa e também destrutiva. O resultado depende dos valores que guiam o uso das novas ferramentas.

Segundo ele, no entanto, o desenvolvimento da máquina mais ajudou que atrapalhou as sociedades humanas. Em sua visão, a inovação realmente extinguiu profissões e empregos, mas sempre constituiu outros, mais sofisticados.

Coloca-se, então, uma primeira questão: convém cultivar o medo? Sim, porque ele agita o pensamento e nos garante uma postura ativa de defesa. Mas sem exagero ou desespero.

E o que fazer depois? Constituir uma gestão da tecnologia baseada em valores éticos, em princípios de respeito e equidade, que seja sempre capaz de atender, de forma justa, às demandas das pessoas e dos outros seres viventes.

Negócios baseados nessa filosofia vão prosperar, gerar lucros e abrir caminhos para o desenvolvimento sustentável.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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quarta-feira, 27/09/17