Pensar sozinho ou em grupo?



Já que existimos, pensamos. E fazemos isso quase o tempo todo. Pensamos para relembrar, para compreender, para inventar, para planejar e, frequentemente, para decidir.

O pensamento é, portanto, uma forma de organizar ideias em busca das melhores decisões. Quem decide procura solucionar um problema e, assim, alcançar segurança, conforto e satisfação.

As melhores empresas levam a sério o desafio do pensar. O exercício da razão (e também da emoção) é fundamental à construção de um modelo para a tomada de decisões.

Por isso, faz anos que o mundo corporativo presta atenção, por exemplo, ao conceito de ócio criativo, desenvolvido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, pesquisador que também pesquisou a função dos grupos criativos.

Meses atrás, o neurocientista Mariano Sigman e o economista comportamental Dan Ariely apresentaram um resumo de suas pesquisas que comparam o pensamento individual e o grupal.

Eles partem do pressuposto de que decisões coletivas efetivamente traçam o futuro de uma empresa, de uma comunidade ou mesmo de um país.

E admitem, também, que nem sempre essas escolhas são justas, corretas e benéficas. Afinal, a história da humanidade está cheia de equívocos coletivos.

Para compreender melhor a questão, eles realizaram um experimento com milhares de pessoas que compareceram a um evento do TED, em Buenos Aires, na Argentina.

Formularam duas questões.

– Qual a altura da Torre Eiffel?

– Quantas vezes a palavra “yesterday” aparece na canção Yesterday, dos Beatles?

Primeiramente, as pessoas se manifestaram individualmente. Depois, foram divididas em grupos de cinco, que foram estimulados a definir uma resposta do coletivo.

Na média, os grupos de consenso aproximaram-se muito mais das respostas corretas do que as pessoas, tomadas individualmente.

A dupla de pesquisadores queria saber se os debates também auxiliavam as pessoas a tomar decisões acerca de temas morais ou filosóficos. Assim, em Vancouver, no Canadá, formularam duas questões:

– Um pesquisador trabalha com uma máquina de inteligência artificial. Ao fim de cada dia, ele a reinicia. Uma noite, no entanto, o equipamento pede para que o botão não seja apertado, porque supostamente tem sentimentos, quer desfrutar a vida e, se reiniciado, deixará de ser quem é. O pesquisador fica assombrado com essa autoconsciência, mas segue o protocolo e reinicia o computador. A pergunta é: em uma escala de zero a dez, o que o cientista fez foi correto ou incorreto?

– Uma companhia produz milhões de embriões com ligeiras variações genéticas. Esse sistema permite aos pais selecionar nos filhos características como altura, cor dos olhos, inteligência e competência social. A pergunta é: em uma escala de zero a dez, o que a empresa oferece é aceitável ou inaceitável?

Em ambos os casos, houve quem preferisse o “zero” ou o “dez”. Para a maioria, no entanto, era aceitável ignorar os sentimentos da máquina que demonstrava autoconsciência. Também prevaleceu a opinião de que é incorreto interferir na genética para mudanças que não estivessem relacionadas à saúde.

Depois, foram formados pequenos grupos para que as pessoas avaliassem as mesmas questões, e muitos deles chegaram a um consenso, até mesmo quando compostos por indivíduos com pontos de vista totalmente divergentes.

Em geral, as pessoas que deram respostas próximas do “meio”, um cinco ou seis, na escala de zero a dez, não se sentiam seguras para apoiar uma ou outra opinião.

No entanto, havia pessoas que tinham optado também pelo meio da régua porque consideravam o mérito de ambos os argumentos. Viam o dilema moral como resultado de duas justificativas válidas e opostas.

E os pesquisadores descobriram que os grupos com esses indivíduos eram os mais propensos a chegar a um consenso. Na Argentina e no Canadá, os consensos levaram em conta a confiança dos debatedores e desconsideraram respostas atípicas, muito distantes da média.

Sigman e Ariely admitem que estes são testes ainda pouco complexos para se compreender como interagimos e como tomamos decisões. Entretanto, apontam tendências e matrizes.

Ao ouvir bons argumentos, expressos de maneira confiante em um ambiente coletivo, até os mais radicais podem ser convencidos a mudar de ideia.

Os pesquisadores notam, no entanto, que o bom pensamento grupal surge quando há independência e autonomia, ou seja, quando as pessoas podem raciocinar sem pressões externas, como propagandas ou tentativas de doutrinação.

Você precisa tomar decisões importantes para sua organização? Pois, pense bem, sem restrições à criatividade. Sempre que possível, experimente o pensamento colaborativo, permitindo que as pessoas expressem livremente suas opiniões.

E preste atenção àqueles que têm saudáveis dúvidas, e que consideram com apreço e carinho todos os argumentos. Eles não têm certeza, porque exercitam a sabedoria.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 28/11/17