Odebrecht: quais perguntas precisam ser respondidas?



Diante da televisão, no horário noticioso nobre, abate-se desconsolado qualquer bom cidadão. São vídeos e mais vídeos que expõem atitudes condenáveis de boa parte da classe política.

Integrantes da situação e da oposição se mostram bem parecidos, envolvidos em vergonhosos casos de corrupção.

Ao mesmo tempo, assombra-nos a parceria desses elementos com figuras de relevo da iniciativa privada. Trata-se de uma cultura de trocas ilícitas que define a conduta nos altos círculos do poder.

Já escrevi anteriormente, nesta newsletter, que a tradição da negociata sabota o capitalismo, porque frequentemente prejudica os melhores competidores, deslocando a mão do mercado em favor dos menos capazes.

Vejamos o caso da construtora Odebrecht. Exposto o escândalo, desejamos saber: como a empresa vai pagar por seus erros e crimes?

As pessoas estão perplexas porque veem seus executivos tranquilos, às vezes irônicos, revelando suas tramoias sem fim.

E eles não falam de casos isolados. É imenso o número de transações. São astronômicos os valores envolvidos.

A empresa chegou a ter um departamento para viabilizar a fraude e vencer ilicitamente concorrências públicas.

No campo da gestão, toda empresa procura identificar suas maiores competências. Uma das virtudes máximas da Ambev, por exemplo, é gerir muito bem sua logística, distribuindo seus produtos onde eles são demandados.

Sem dúvida, a Odebrecht tem um portfólio de boas obras, mas, afinal, qual é sua maior competência: vencer concorrências de forma fraudulenta ou entregar aeroportos, prédios e estádios?

Cabe imaginar a situação das empresas supostamente honestas que disputaram (e perderam) concorrências públicas com a Odebrecht.

Investiram em processos complexos e dispendiosos. É preciso, por exemplo, mobilizar pessoal técnico qualificado para elaborar pré-projetos e a proposta final.

É necessário também efetuar um depósito caução e, por vezes, apresentar uma fiança bancária. Ou seja, custa caro participar de uma concorrência.

Hoje, essas empresas sabem que, em muitas ocasiões, não perderam porque fixaram um preço maior ou porque ofereceram uma proposta técnica pior.

Foram derrotadas porque participaram de um jogo de cartas marcadas, em que o vencedor estava previamente definido.

Foram superadas porque alguém “comprou” o parlamentar ou o mandatário eleito para cuidar da coisa pública.

Evidentemente, esse tipo de negociata gera monopólios e atrasa a economia. Ao irrigar a conta dos políticos, o dinheiro da propina encarece obras e, muitas vezes, faz com que sejam realizadas com padrões de qualidade inferiores.

E quem paga por tudo é sempre o tal pacato cidadão, que, impotente, vê o dinheiro dos impostos desviado para fins indevidos.

Se a comunidade reclama a falta da creche, do hospital e da estrada, é porque esses recursos pagaram uma campanha eleitoral, é porque acabaram transformados em uma mansão ou carro de luxo importado para o político.

A primeira pergunta que fica é: como a Odebrecht vai pagar por todos os prejuízos causados à sociedade?

A segunda é: como é que os balanços da empresa contabilizaram todo esse dinheiro que saía nos dutos da corrupção?

E mais: qual foi o papel das auditorias neste processo? Por que essas falcatruas demoraram tanto a aparecer?

Cabe refletir, avaliar e cobrar as autoridades.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 18/04/17

  • Victor Kazuo Teramoto

    Em resumo prof. Carlos Júlio, temos uma crise de sociedade. O mundo contemporâneo precisa resgatar o senso de comunidade para entender que a dor de uma pessoa é sentida pelo todo e, portanto, precisamos cuidar das pessoas e das relações acima de tudo.