O outro: por que ele é importante às organizações?



Chefe de comunicação do Alto Comissariado para os Refugiados da Organização das Nações Unidas, Melissa Fleming tem acompanhado incríveis jornadas de pessoas que escaparam da fome, da opressão política e da guerra.

Ela costuma contar a saga de Jacob Atem, um menino sudanês que, aos sete anos de idade, testemunhou a destruição de sua vila e a execução de seus pais.

O garoto vagou por sete meses até alcançar um campo de refugiados, onde permaneceria por sete anos. Um dia, encontrou a chance de morar nos Estados Unidos.

Foi adotado por uma família dedicada e pôde realizar seu sonho: matricular-se em uma escola. A experiência foi coroada de êxito.

Anos depois, Atem formou-se na universidade, especificamente em saúde pública, e iniciou o projeto de construção de uma clínica médica em sua aldeia natal.

Este é um bom exemplo de como investir no outro pode fazer deste um mundo melhor. Vale para estes tempos difíceis, em que nações como os EUA sofrem com radicalismos e violência.

O filósofo e teólogo Jonathan Henry Sacks lembra que, em tempos atuais, os filtros das redes sociais nos cercam de pessoas como nós, que pensam como nós e que, de alguma forma, compartilham de nossos piores preconceitos. São as bolhas de concordância e unanimidade.

Pode parecer confortável, mas é uma forma de calcificar concepções, de perseverar no erro e de embotar a capacidade criativa.

Conforme alerta Cass Sunstein, especialista em Direito e professor de Harvard, ao nos cercarmos de pessoas com as mesmas perspectivas, tornamo-nos mais radicais.

Segundo Sacks, é preciso que estabeleçamos contatos francos com os diferentes e os divergentes. É nesse exercício, segundo ele, que podemos exercitar a discordância, mas manter o respeito e a cooperação.

O pensador alerta para a ideia errônea de que problemas complexos possam ter soluções fáceis, como a eleição de um “líder forte”, um salvador da pátria, que simplesmente pulverize seus inimigos e puna a opinião contrária.

Ele também adverte para o perigo representado pelos radicais conservadores, saudosos de um tempo de ouro que nunca existiu, e pelos radicais ditos progressistas, que vendem uma perfeição futura que jamais será realidade.

De acordo com Sacks, quando temos muito do “eu” e pouco do “nós”, tornamo-nos vulneráveis, amedrontados e solitários. A superação desse drama, raciocina o filósofo, se dá com a aceitação do outro, de suas razões e de suas demandas.

O papa Francisco insistiu em tese semelhante, meses atrás, ao lembrar que a ternura é o caminho pelo qual passam os homens e mulheres mais fortes e corajosos.

“Existe um ditado na Argentina: ‘o poder é como tomar gin de estômago vazio’: você se sente tonto, embriagado, perde o equilíbrio e acaba se machucando e também aqueles ao redor; exceto se você associar seu poder à humildade e à ternura”, disse o pontífice.

Não é diferente no mundo das organizações. Cada negócio estabelece uma aldeia, um grupo heterogêneo de pessoas, com complexas conexões cruzadas.

Lidando com fornecedores, sócios, colaboradores, parceiros, investidores, clientes, mídia e comunidades, precisamos constantemente exercitar a empatia.

Temos de nos colocar no lugar do outro para compreender, por exemplo, os prazos de quem nos fornece um insumo. E também para identificar as demandas específicas do consumidor e perceber o impacto de nossas ações nas comunidades humanas e no meio ambiente.

Tratei com carinho deste assunto em meu livro A Economia do Cedro, dando ênfase à questão da responsabilidade nos grandes e pequenos negócios.

Ser responsável exige que avaliemos nossas ações e determinemos de que maneira influenciamos a vida dos outros.

O termo “companhia” tem origem justamente no compartilhamento do pão, na atividade conjunta, na divisão que vira multiplicação, na construção de uma relação de trocas justas entre os atores sociais.

Nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Venezuela, no Brasil, em qualquer lugar, o enfrentamento de radicais exprime sempre a desconsideração pelo outro e o fanatismo pelas próprias ideias.

Onde essa cultura se espalha, a cultura de negócios raramente prospera, pois se perde a noção de benefício recíproco. Não se vê comércio onde as pessoas estão dedicadas à imposição de ideias, à perseguição dos divergentes e à vingança.

É preciso ver o outro, ouvi-lo, dialogar e, a cada dia, aprimorar nossa visão de mundo. Não sabemos de tudo e o melhor processo educativo depende da atenção à mensagem do outro.

É assim que se fortalecem e se desenvolvem as organizações. Participe dessa aventura.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 15/08/17