E se o pior inimigo for você mesmo?



Recentemente, li um curioso artigo de Stephen J. Dubner, um dos autores do best-seller Freakonomics. Seu mote é “salve-me de mim mesmo” e trata de “dispositivos de compromisso”.

Esse artifício é utilizado como suporte psicológico para pessoas que se dedicam a uma tarefa de difícil execução, na qual a força de vontade é fundamental.

Por vezes, mesmo bem intencionado, você prevê que sua versão futura vai adotar uma postura capaz de sabotar seus planos.

É o caso da pessoa que se dispõe a parar de beber, mas sabe que sua versão da semana seguinte, no encontro anual dos amigos da universidade, ficará tentada a se esbaldar na cerveja ou no uísque.

Nesse caso, o indivíduo estabelece um “dispositivo de compromisso” para penalizar ou recompensar sua versão futura.

Segundo Dubner, foi o que fez um jornalista viciado em jogo, que se inscreveu numa lista de auto-exclusão. Se entrasse novamente num cassino, poderia ser preso e responder a um processo judicial.

Em décadas de atividade como gestor, educador e palestrante, tenho encontrado talentos que enfrentam o mesmo problema: suas versões presentes costumam entrar em conflito com suas versões futuras.

Em geral, o que ocorre é falta de disciplina. O administrador se compromete, por exemplo, a executar uma nova política de formação de recursos humanos. No entanto, esmorece diante da resistência do pessoal e das limitações financeiras e logísticas.

Há quem simplesmente fracasse porque não consegue acordar cedo ou porque se rende à preguiça. Muitas vezes, uma brilhante carreira é interrompida porque o profissional não leu a apostila com os modelos de conduta exigidos pela companhia.

Os dispositivos citados por Dubner podem ser eficazes. No entanto, o problema é mais complexo. A busca do êxito deve sempre passar por uma fase de planejamento.

Em meu livro A Arte da Estratégica, que recentemente foi reeditado com o Título Você, um grande estrategista, pela Editora Livros de Safra, tratei de forma detalhada da construção dessas estratégias, fundamentais a empreendedores, gestores e executores.

Hoje, gostaria de oferecer uma dica essencial para quem pretende se relacionar bem com sua versão futura. Trata-se da escolha do objetivo.

Muitas vezes, o malogro tem relação direta com essa decisão. Miramos perto demais ou longe demais.

Proponho um exercício simples e lúdico. Pegue uma garrafa e algumas argolas. Em seguida, reproduza aquele desafio dos parques de diversão.

Se colocar a garrafa perto demais, ficará bem fácil de acertar, e você logo se cansará do jogo.

Por isso, afaste a garrafa aos poucos. Em determinado momento, por mais que tente, não acertará.

É a hora mágica de trazer a garrafa de volta, um pouco mais para perto das suas mãos.

Pare de movê-la quando puder acertar uma ou outra argola. A brincadeira ficará difícil o suficiente para se manter interessante e permitir que você calibre o lançamento e melhore, aos poucos, seu score.

Se você está no ponto A, esse ponto médio é o B, aquele do desafio possível. Esse modelo de pensamento e prática serve também para as metas corporativas.

Você pode fixar objetivos em sete áreas básicas:

  1. Crescer, aumentando o volume de vendas;

  2. Ampliar sua participação no mercado;

  3. Elevar a rentabilidade;

  4. Superar uma crise;

  5. Fortalecer a marca;

  6. Modernizar processos;

  7. Maximizar sua performance profissional.

Costumo dizer que o objetivo deve ser “SMART”:

Singular – Precisa ter uma identidade específica, que seja descrita por uma taxa, número, porcentagem ou frequência.

Mensurável – É preciso que seja medido, comparado e quantificado, regularmente.

Alcançável – Precisa ser fixado de maneira realista, conforme o exercício das argolas.

Relevante – Deve realmente resultar em benefício para a empresa e ou para os stakeholders.

Temporalmente definido – É fundamental que seja estabelecida uma agenda de execução, com datas para a obtenção de cada resultado.

Dessa forma, é possível estabelecer um acordo justo entre o você de hoje e o você de amanhã.

Na próxima semana, trataremos novamente deste assunto. Enquanto isso, reflita sobre o assunto.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 06/03/12