E o Oscar do erro, afinal, vai para quem?



Uma histórica trapalhada marcou a entrega do prêmio de melhor filme na 89ª. cerimônia de entrega do Oscar, em Los Angeles, no domingo, 26 de fevereiro.

Você assistiu. Ou ficou sabendo pela mídia. Mas vamos rememorar mesmo assim. Era o fechamento da noite. A dupla Warren Beatty e Faye Dunaway se coloca no palco para o principal anúncio da noite. Depois de abrir o envelope, Beatty hesita em anunciar o vencedor. Mostra o cartão para a parceira que, sem titubear, declara o filme La La Land como merecedor da grande honra.

Os produtores do musical já estão recebendo suas estatuetas quando membros da organização do evento intervêm, informando a ocorrência de um erro. O verdadeiro ganhador é o filme Moonlight. Beatty explica que o cartão que recebeu tinha o nome de Emma Stone, nomeada melhor atriz por sua performance em La La Land.

Ora, a academia toma precauções para evitar problemas deste tipo. Por isso, mantém uma parceria com a consultoria PricewaterhouseCoopers, encarregada de tabular resultados, preparar os envelopes e entregá-los aos apresentadores.

O que ocorreu? Uma confusão, uma falha humana, e a mundialmente famosa empresa teve a reputação arranhada e precisou se desculpar com Hollywood e também com o mundo.

O episódio lembrou outro equívoco recente. Em 2015, no Miss Universo 2015, o apresentador Steve Harvey anunciou a Miss Colômbia, Ariadna Gutiérrez, como vencedora. Momentos depois, pediu a palavra, declarou ter cometido um erro e declarou a filipina Pia Alonzo Wurtzbach como verdadeira ganhadora da disputa.

Ali, o problema aparentemente estava associado a letras pequenas demais e à diagramação do cartão que informava o resultado.

Nesses dois casos, não houve maiores danos. Não houve vítima fatal. Ninguém se feriu. No entanto, erros humanos, especialmente no campo da gestão, podem provocar perdas financeiras, destruir reputações, além de ceifar vidas.

Em abril de 2010, no Golfo do México, por exemplo, ocorreu o maior derramamento de óleo na história da indústria petroleira, resultado da explosão na plataforma Deepwater Horizon. Além do prejuízo estimado em 40 bilhões de dólares, do enorme dano à ecologia marinha, onze pessoas morreram.

Os especialistas consideram o desastre como resultado de uma cadeia de erros da empresas envolvidas na operação, nos quais se misturaram imperícia e irresponsabilidade.

Há sequências estarrecedoras de erros também no naufrágio do Titanic, em 1912; na explosão do ônibus espacial Challenger, em 1986; no vazamento de óleo do Exxon Valdez, em 1989; ou na perda de uma sonda da NASA, em 1999, porque as duas equipes encarregadas do projeto não combinaram qual seria o sistema de medidas. Uma delas usou o inglês, enquanto a outra preferiu o métrico. Um desacerto que gerou prejuízo de 125 milhões de dólares.

Aqui mesmo, no interior de Minas Gerais, em novembro de 2015, rompeu-se uma barragem de rejeitos de mineração controlada pela empresa Samarco. Foi o maior desastre socioambiental da história brasileira. O despejo de lama afetou a bacia do Rio Doce e parte da região litorânea do Espírito Santo.

O tempo passa, multiplicam-se os avanços tecnológicos, implementam-se programas de compliance nas organizações, mas a humanidade continua cometendo erros. Por quê?

Há basicamente nove explicações para o erro: uso de estratégia equivocada, uso de dados incorretos, leitura incorreta de dados corretos, ausência de checagem, confiança excessiva em rotinas, distração, displicência, imperícia e arrogância.

A prestigiada jornalista e escritora norte-americana Kathryn Schulz se define como uma “wrongologist”, ou seja, uma pesquisadora dedicada a compreender a natureza do erro. É autora do livro Being Wrong: Adventures in the Margin of Error.

Segundo ela, no mundo atual, estamos presos em uma bolha de certeza. Bem informados, logo julgamos e nos sentimos convictos sobre tudo. Estar errado ou em dúvida é algo que nos aflige. Ter certeza, ao contrário, nos inunda de satisfação.

Para Kathryn sofremos da “cegueira do equívoco”. Nesses casos, não temos indicação interna sobre o erro até que seja tarde demais. Foi provavelmente o caso do piloto do avião da Chapecoense, que acreditava piamente ser possível voar até Medellín com uma quantidade limitada de combustível.

Costumamos, pois, negar a possibilidade do erro, porque seria admitir que há algo de errado conosco. Queremos nos sentir capazes, responsáveis, virtuosos e seguros. Por isso, há quem teime em apertar o botão errado na sala de máquinas, em conduzir o navio para os icebergs ou em votar no mesmo político desonesto.

Muito tempo antes de Descartes cunhar sua famosa frase “penso, logo existo”, Santo Agostinho escreveu: “erro, logo existo”. Para ele, o erro é algo humano, natural, capaz de nos definir.

Trata-se de um estímulo à prática da humildade, à maravilhosa capacidade que o homem tem de duvidar de si mesmo. Não sabemos de tudo. Nunca saberemos, finitos e imperfeitos que somos.

Cabe-nos, portanto, exercitar a modéstia, reler o manual, perguntar para o colega, checar a informação, estudar novamente a teoria, mudar de ideia se necessário, corrigir procedimentos, pedir perdão e, enfim, tentar fazer a coisa certa. É lição que serve especialmente a quem gere e lidera.

Ah… Talvez não avancemos exatamente assim, porque eu também erro. Mas penso que seja um caminho para quem busca um Oscar na vida.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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quinta-feira, 02/03/17