Dulce Magalhães: quanto vale um exemplo de vida?



O palestrante vive em dois mundos. O primeiro é aquele de seus ensinamentos públicos, aulas e préstimos educativos. Como regra, é nesse que inspiram pessoas, incentivam ações e apontam caminhos para quem busca realizar seus sonhos.

O segundo é aquele da vida pessoal, no qual encara dificuldades, barreiras e problemas. Nele, é apenas mais um indivíduo, com todos os receios, fragilidades e limitações da condição humana.

Os grandes palestrantes são, frequentemente, confundidos com super-heróis, como se tivessem amplos poderes, respostas para todas as questões e a capacidade de superar, em um passe de mágica, todas as adversidades.

Essa falsa crença se estabelece, principalmente, em razão de três virtudes dos bons profissionais da área: a prática da empatia, o carisma e o dom de comunicação.

O primeiro item diz respeito à facilidade do palestrante em desvendar os segredos de sua plateia, em adivinhar seus medos e anseios, em se colocar generosamente no lugar dos ouvintes.

O segundo tem relação com a capacidade de despertar interesse, de construir relevâncias e de gerir seu arsenal simbólico com o objetivo de produzir encantamento.

O terceiro estabelece a ponte desimpedida com os interlocutores, na qual a palavra fácil, clara e compreensível compõe a experiência pedagógica da troca de ideias.

Enfim, os melhores palestrantes cativam e apaixonam suas audiências. Quando expõem teses, analisam fenômenos ou contam histórias, aguçam a imaginação e, não raro, estimulam os ouvintes a ousar contra o impossível.

Depois de uma palestra das boas, há um que decide empreender, outro que delibere constituir família e um terceiro que escolha vender todas as suas coisas e dar uma volta ao mundo em busca de iluminação.

A sociedade em rápida transformação demanda compartilhamento de saberes, educação continuada e conteúdo para autoconhecimento. Neste contexto, os palestrantes misturam os ofícios do filósofo, do psicólogo, do sacerdote, do ator, do conselheiro, do professor e até do mágico.

Novamente, no entanto, a reflexão levanta uma indagação fundamental: será que os palestrantes praticam mesmo o que pregam? Será que vivem a coerência dos sábios e dos retos de caráter?

Posso falar ao menos de uma colega: Dulce Magalhães, que fez a passagem nesta segunda-feira, aos 51 anos de idade.

Essa mulher de olhar dadivoso e lábios sorridentes vivia perfeitamente aquilo que predicava. Em suas conversas com destacados empresários, jovens estudantes ou amigos próximos, não renunciava ao bom paradigma: era doce, compreensiva e zelosa de suas convicções.

Dulce proferiu mais de duas mil palestras e tinha 16 livros publicados. Seu currículo exibia um Ph.D. em Filosofia pela Universidade Columbia (EUA), além de cursos por outras conceituadas instituições de ensino. Havia sido também diretora da Associação Empresarial da Região Metropolitana de Florianópolis. Ainda assim, pautava-se pela simplicidade e mostrava-se sempre disposta a aprender.

Ativista da causa da paz, tomava parte do comitê de 80 líderes mundiais para a elaboração de um Programa Global de Cultura de Paz, projeto coordenado pelo ex-presidente norte-americano Bill Clinton.

Enquanto cumpria sua jornada neste mundo, Dulce foi plena, digna e íntegra: palestrou o que vivia, vivia o que palestrava, sem mistificações ou efeitos especiais.

Como última mensagem, publicou um vídeo em que parecia antever o futuro, em que procurava consolar e ensinar aqueles que sofreriam com sua partida prematura.

Ensinou-nos assim:

“A gente nasce para morrer (…) tenho pensado que a morte é o auge da vida, que a gente só veio para essa existência para morrer; para deixar para trás aquilo que não é mais; para viver cada dia como este dia, como único dia, como último dia. (…) Reflita sobre isso. Aproveite sua qualidade específica, máxima, de ser mortal e faça o renascer a cada instante”.

Como especialista em mudança e aprendizagem, Dulce foi excelente palestrante até para concluir sua magnífica trajetória. Escreveu sua conclusão, deu significado a sua aventura e reafirmou sua crença no ciclo do renascimento. É um exemplo de vida que não tem preço.

As mensagens da amiga Dulce ficam preservadas em escritos, sons, imagens e lembranças. Seguirão nos educando, todos os dias.

Afinal, o amor, na prática, sempre vence!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 07/02/17