De onde vem essa mania de trapacear?



A trapaça é, provavelmente, o pior e mais antigo vício da humanidade. Está intimamente associada à mentira, que, por ironia da evolução, é uma técnica de sobrevivência das espécies mais inteligentes.

A mentira, em si, garante coesão social. Sim, porque é utilizada para evitar o conflito e a decepção do outro.

– Ah, não, querida, você não está gorda!

– Está mesmo uma delícia seu prato, mas estou de regime.

– Então vamos subir até o pico da montanha? Sem problemas, estou em forma e aguento.

Estudos revelam que uma pessoa comum pode ouvir de dez a 200 mentiras num só dia. Uma pessoa casada mente para o cônjuge, em média, uma vez a cada dez interações. No caso de namorados, a inverdade está presente a cada três interações.

A pesquisadora Pamela Meyer, especialista em mídias sociais, e craque na detecção de mentiras, afirma que a mentira é também uma forma de preencher lacunas.

Mentimos porque nossos cérebros são capazes de fantasiar. Desejamos ser melhores parceiros sexuais, melhores líderes, melhores colaboradores, melhores vizinhos, melhores cidadãos.

Se estamos distantes do ideal de perfeição estabelecido, investimos na construção de uma realidade paralela. E isso ocorre, muitas vezes, de maneira inconsciente.

Pessoas interessadas em ajudar as autoridades, por exemplo, costumam criar narrativas distorcidas sobre episódios que testemunharam. Agem assim porque desejam se sentir relevantes.

Por vezes, são tão “honestas” na mentira que passam a acreditar no que imaginaram, e não no que efetivamente viram ou ouviram.

O pior é que, frequentemente, essas histórias adulteradas são tomadas como verdades incontestáveis.

Pamela diz algo perturbador: “a mentira é um ato cooperativo”. Segundo ela, a mentira, por si própria, é inofensiva. “Seu poder surge quando alguém concorda em acreditar nela”.

A trapaça, por sua vez, estabelece uma ação mais complexa e elaborada em que o agente da ação aproveita ou cria a oportunidade de obter uma vantagem ilícita.

Dan Ariely, professor de Psicologia e Economia Comportamental na Duke University, passou boa parte da vida realizando testes para determinar o que leva as pessoas a trapacearem.

Primeiramente, ele descobriu que o número de pessoas que trapaceiam é muito maior do que se imagina. Tudo depende da circunstância.

“Quando damos às pessoas a oportunidade de trapacear, elas trapaceiam”, afirma. “Pode ser apenas um pouco, mas trapaceiam”.

Em um famoso experimento com estudantes, ofereceu-se uma soma em dinheiro equivalente ao grau de realização de determinada tarefa. Detalhe: os resultados não eram controlados pelos monitores.

No grupo, havia um ator fingindo tomar parte na experiência. Ele se levantava depois de 30 segundos da proposição do teste e dizia ter cumprido a missão. Sem que sua afirmação fosse comprovada, era liberado e seguia para casa com a totalidade do dinheiro prometido.

O exemplo do ator mostrou que eles podiam trapacear sem serem pegos. E, assim, outros participantes abriram mão de suas convicções morais. Mais do que a sensação da impunidade, contava a experiência de grupo.

Os voluntários da pesquisa eram alunos da universidade Carnegie Mellon, de Pittsburgh. Quando o ator que se levantava mostrava ser dessa instituição de ensino – portanto, um deles – a trapaça aumentava. Quando, no entanto, vestia uma camiseta da Pittsburgh, uma universidade rival, a trapaça diminuía.

“Se alguém do nosso grupo faz a trapaça, sentimos que é apropriado fazer o mesmo”, diz Ariely. “Mas se é alguém do outro grupo – essas ‘pessoas terríveis’ – as pessoas trapaceiam menos”.

Esses estudos explicam um pouco a crise brasileira. Mais do que evidência da ruína moral das pessoas, trata-se de um problema cultural e estrutural, especialmente em nosso sistema político.

Ele é viciado, tem uma antiga tradição de desonestidade e contagia rapidamente aqueles que nele se agregam, mesmo os homens e mulheres criados em ambientes marcados pela ética e pela justiça.

Mudar e aperfeiçoar as pessoas? Sim, é importante. Mas modificar o sistema é urgente e fundamental se quisermos nos desenvolver como Nação. O desafio está lançado.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 23/05/17