Como sobreviver à epidemia de improbidade?



Você dorme tarde, acorda cedo, consome o feriado diante do computador, rala, inventa, testa, produz, distribui, vende e, no fim, o resultado parece não premiar o esforço.

Vem então aquela sensação de frustração. Onde foi parar o benefício que deveria ser gerado por tanto empenho? Quem auferiu o lucro que deveria estar aqui?

No Brasil, temos hoje uma ideia mais clara do desvio. Parte considerável do seu esforço se esvai em tributos que, frequentemente, não retornam na forma de avanços sociais.

Acabam nas repulsivas malas de dinheiro que circulam entre políticos e nas contas turbinadas de determinadas empresas que deles obtêm tratamento especial.

Não se trata, porém, de um mal restrito a nossa realidade particular. Publicado em 2014, por Alexander Dyck, da Universidade de Toronto, e pesquisadores associados norte-americanos, o estudo How Pervasive is Corporate Fraud? revela ser de 380 bilhões de dólares o custo anual das fraudes realizadas em grandes corporações norte-americanas.

Em estudo de 2015, o economista Gabriel Zucman, professor assistente da Universidade da Califórnia em Berkeley, mostra que pelo menos 8% da riqueza global está mantida em paraísos fiscais.

Há outros dados estarrecedores. A prestigiada publicação médica The Lancet divulgou no ano passado um estudo sobre o impacto da crise de 2008 no tratamento do câncer em países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O resultado: a instabilidade iniciada com a farra dos subprimes está relacionada a 263 mil mortes causadas pela doença, somente até 2010.

De acordo com o chefe da pesquisa, Mahiben Maruthappu, do Imperial College London, esse enorme prejuízo social deriva do desemprego e principalmente do corte de verbas nos serviços públicos de saúde.

O que vai ao bolso do corrupto, pois, desaparece da vida de quem realmente trabalha, realiza e merece a retribuição pelo empenho.

O dinheiro que se concentra ilegalmente nas mãos de governos e corporações também some do mercado, prejudicando outras empresas, retardando os processos de inovação, reduzindo grupos de trabalho e diminuindo a remuneração dos ocupados.

No final de 2016, a Fortune publicou uma longa lista de empresas que cometeram fraudes ou simplesmente ousaram trocar valores éticos por benefícios financeiros.

Um exemplo foi a Wells Fargo, instituição financeira que pagou pesadas multas e teve sua reputação duramente arranhada. Para impulsionar o crescimento, os executivos pressionaram indevidamente seus funcionários para atingir cotas de venda.

Empenhados em manter o emprego, esses colaboradores responderam com fraudes, abrindo contas fictícias. Na maior parte dos casos, foram fechadas antes que os clientes percebessem. Em outros casos, no entanto, os consumidores foram lesados pela cobrança de taxas ou experimentaram alterações em suas classificações de crédito.

Outra encrenca, digamos moral, surgiu com a Mylan, empresa que decidiu aumentar tremendamente o preço de seu EpiPen, dispositivo que administra epinefrina, antídoto fundamental para pessoas severamente afetadas por reações alérgicas.

Em anos recentes, estabelecendo praticamente um monopólio do produto, a empresa majorou seu preço em mais 400%. Problema sério para muitos consumidores. Depois, para a empresa, que viu sua CEO arrastada ao Congresso norte-americano para dar explicações.

A publicidade negativa derrubou o valor das ações da companhia e ainda dirigiu o interesse dos promotores públicos para supostas fraudes na participação em programas de saúde do governo dos Estados Unidos.

Em meu livro A Economia do Cedro trato com minúcia dessa “economia da irresponsabilidade”. Ela conspira contra as liberdades garantidas pelo sistema capitalista, degenera mercados e, por fim, constitui enormes prejuízos à sociedade.

É preciso que seja tratada como uma epidemia, global e mortal, e que seus propagadores, agentes públicos ou privados, sintam o devido peso da mão da lei.

Todos nós podemos contribuir com esse processo de saneamento. A primeira atitude: fazer sempre a coisa certa, cujo conceito se expressa facilmente em nossa consciência.

A segunda atitude: denunciar sempre quem faz a coisa errada. No curto prazo, podemos sofrer consequências. É o negócio que não fecha, é a autorização pública que não vem, é o ganho que demora a aparecer.

Se pensamos, no entanto, em negócios feitos para durar, o fazer justo e correto constitui a boa reputação, ativo fundamental às empresas e outras organizações. É o bom pavimento para o sucesso.

A improbidade é doença viral, sem dúvida, e a coragem representa a melhor das profilaxias e o melhor remédio. Ouse ganhar apenas o que merece. Respeite os stakeholders. Seja transparente. Faça bem feito. Pague o que deve, apenas o que deve.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 19/09/17