Como recriar o conceito de respeito à mulher?



Recentemente, Elena Myers, uma destacada figura do motociclismo desapareceu da cena esportiva, causando perplexidade em seus milhares de fãs nas redes sociais.

Dias atrás, ela revelou à mídia a razão do abandono: os efeitos traumáticos do abuso sexual que sofreu durante uma sessão de massagem terapêutica, em um hotel da Filadélfia, nos Estados Unidos.

Com coragem, Elena narrou sua história ao mundo. Episódios como esse, no entanto, se repetem todos os dias, em empresas e instituições, sem que as vítimas denunciem seus agressores.

Por vezes, o resultado é apenas a queda da produtividade. Noutras ocasiões, é uma falta justificada por enfermidade. Mais frequentemente do que se imagina, porém, é a renúncia ao cargo ou mesmo ao sonho profissional.

Há mais de quinze anos, em meu livro Reinventando Você, escrevi sobre a “mulherização” das empresas e dos desafios associados a essa transformação. Previ conquistas e também provas de superação.

Meses atrás, uma pesquisa realizada pelo Trades Union Congress mostrou que 52% das mulheres do Reino Unido já sofreram algum tipo de assédio sexual no ambiente de trabalho.

Os abusos incluem piadas ofensivas, comentários inadequados sobre seus corpos, apalpadelas e investidas violentas.

Entre as mulheres na faixa de 16 a 24 anos, 63% já foram vítimas de comportamentos desrespeitosos. Entre as consultadas, 1% relatam que foram estupradas ou sofreram graves abusos no local de trabalho.

Cerca de 20% das mulheres relataram que foram assediadas pelo chefe ou por alguém em posição hierárquica superior.

No total, entretanto, 80% das mulheres que admitiram ter sofrido assédio não reportaram os incidentes. Os motivos: o receio de prejudicar as relações no trabalho e a possibilidade de não serem levadas a sério.

Uma profissional relatou que passou meses evitando dirigir-se ao depósito da empresa, temendo o responsável pela área. Em seu último dia na companhia, ela ouviu o colega confessar que lamentava não ter encontrado oportunidade para violentá-la.

Nas últimas décadas, os países ocidentais criaram inúmeras leis para proteger e amparar as mulheres, inclusive no ambiente de trabalho. As grandes empresas constituíram até mesmo códigos internos para evitar episódios dessa natureza.

O incômodo problema persistente, no entanto, é a inexistência de uma cultura consolidada de respeito pela mulher no ambiente laboral, mesmo nas nações desenvolvidas.

O norte-americano Jackson Katz, educador, escritor e co-fundador do Mentors in Violence Prevention (MVP), adverte que boa parte dos homens identifica o tema como uma preocupação das feministas.

Segundo ele, a percepção geral é de que se trata de uma questão particular das mulheres, um equívoco que prejudica as empresas e, no fim, atrasa o processo civilizatório.

Afinal, o problema é, sim, também dos homens, criados em uma sociedade machista, na qual o poder sobre as mulheres se exerce frequentemente pela submissão sexual.

Para Katz é preciso mais do que uma educação para o respeito. Necessitamos de homens corajosos, capazes de quebrar o silêncio e multiplicar o conceito de integridade moral.

Em sua opinião, também é necessário que os jovens sejam ensinados a viver a masculinidade de outra forma, exercitando a empatia, ouvindo as demandas das colegas e criando uma cultura de respeito em relação às mulheres.

Há, portanto, que se exercitar essa projeção na mulher, sentir-se como ela, considerar seus sentimentos, contemplar suas exigências para a parceria saudável e livre do interesse oportunista.

O primeiro passo é evitar que a convicção pessoal seja elevada à categoria de verdade universal. Não, nem tudo que parece normal para eles se afigura como apropriado para elas.

Muitas mulheres, certamente a maioria, recusariam um elogio sobre seus seios, um afago nos cabelos ou convites maliciosos para o happy-hour. Se é assim, convém que sejam ouvidas, entendidas e atendidas.

Sim, é possível que colegas de trabalho se apaixonem, namorem e até se casem. Mas estes são processos normalmente distintos, pautados pela reverência e pela discrição. A expressão mágica para este caso é: interesse consensual.

Verdadeiras demonstrações de afeto e consideração passam longe de galanteios persistentes, lisonjas ambíguas e insinuações de cunho sexual.

Essas condutas fazem mal para os profissionais. Fazem muito mal para as organizações.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
Compartilhe!

quarta-feira, 22/02/17