Como gerir o altruísmo sem jogar dinheiro fora?



Nas duas primeiras semanas de outubro, nossa newsletter tratou de questões ligadas à gestão da responsabilidade em um mundo de contrastes econômicos e degradação ambiental.

O interesse era derrubar alguns mitos associados às virtudes da caridade e da filantropia. Afinal, nem sempre o bom coração produz boas obras.

Neste último artigo da trilogia, vamos explorar o conceito de “altruísmo eficaz”, discutido hoje em grandes corporações, renomadas universidades e associações dedicadas à promoção social.

O que dizem os estudos nesta área? Que muito do dinheiro doado para a caridade é desperdiçado ou tem um impacto irrelevante na construção de um mundo melhor.

Um curioso exemplo vem do Reino Unido, onde ficou famosa a prática dos saltos de paraquedas associados a doações caritativas. Parecia uma boa ideia, vinculada a uma aventura marcante.

Na virada do milênio, porém, um detalhado estudo científico publicado no International Journal Of The Care Of The Injured revelou que muitos dos saltadores eram novatos e se machucavam seriamente durante as manobras. E muitos precisavam de tratamento no serviço público de saúde.

O resultado da conta. Para cada libra doada, os paraquedistas caridosos geravam, em média, 13,75 libras de custo para os hospitais, isto é, para os cidadãos contribuintes.

De lá para cá, os organizadores das atividades dizem ter aprimorado as medidas de segurança. Para o professor William MacAskill, de Oxford, no entanto, especialista em investimentos de impacto social e ambiental, esta ainda é uma forma de desperdiçar a boa vontade.

Segundo ele, esse virou um negócio bem estruturado de retenção de recursos. Uma indústria de atravessadores, organizada nos clubes de saltos, acaba por consumir considerável parcela dos valores que seriam destinados às ações sociais.

Outro projeto famoso, e também polêmico, foi aquele do Playpump. No início dos anos 2000, empresas e celebridades patrocinaram a instalação de aparelhos de gira-gira (aqueles dos parques infantis) em regiões pobres da África.

O brinquedo estava ligado a um sistema de bombeamento de água de aquíferos subterrâneos, ajudando a abastecer aldeias e vilas. A cantora Beyoncé e o ex-presidente norte-americano Bill Clinton adoraram a ideia.

De início, tudo parecia ótimo, mas logo a molecada acabou enjoando da atividade. Como era preciso girar o mecanismo, o projeto acabou, em muitos lugares, constituindo uma nova forma de exploração do trabalho infantil.

Em várias aldeias, o esforço de mover o gira-gira virou responsabilidade das mulheres mais velhas. Aqui e ali, o sistema se mostrou inviável e os sistemas manuais foram restabelecidos.

Na década passada, a apresentadora Oprah Winfrey investiu US$ 40 milhões de sua fortuna em uma bela escola para 152 meninas pobres da África do Sul. Excelente iniciativa.

A turma empreendedora do grupo BuildOn, no entanto, ergue e aparelha uma escola (menos chique) no Haiti, no Mali ou no Nepal por US$ 30 mil, ou seja, menos de 0,1% do valor aplicado nas sortudas sul-africanas.

Outro exemplo de benevolência eficaz foi oferecido pelo jovem norte-americano Lincoln Quirk, que estudou ciência da computação na universidade Brown.

Amante de tecnologia e do empreendedorismo, em 2014, ele criou a empresa Wave, cujo objeivo é inserir nos mercados de consumo populações dos países mais pobres da África.

O aplicativo permite que os usuários enviem dinheiro, de forma instantânea, com taxas menores, para instituições em países como Uganda, Gana e Tanzânia.

Pequenas intervenções globais, se bem planejadas, podem render enormes benefícios para a humanidade. Um véu de leito, usado na prevenção da malária, pode custar o equivalente a pouco mais de R$ 7. Um medicamento antiparasitário pode eliminar o sofrimento de uma criança. E custa menos de R$ 5.

Os suplementos de micronutrientes (como, por exemplo, ferro, iodo e vitaminas) podem eliminar doenças, salvar vidas e contribuir para o fortalecimento da economia. No Camboja, por exemplo, a desnutrição gera problemas de saúde que consomem 2,5% do PIB do país.

Estudos compilados pelo Banco Mundial revelam que eliminar a anemia resulta em um aumento de 5% a 17% na produtividade dos trabalhadores, o que representa elevação de 2% no PIB dos países mais afetados.

Nosso mundo ainda enfrenta muitos problemas. Mas muitos deles podem ser solucionados, hoje, com uma gestão adequada do conhecimento e da aplicação dos recursos já existentes, conforme explico em meu livro A Economia do Cedro.

Quer mesmo fazer o bem? Faça com consciência. Doe para multiplicar o benefício. Ajude aqueles que vão pescar.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 17/10/17