Como avançar com os inconformados?



Normalmente, os gestores costumavam se comportar de maneira temerosa diante dos colaboradores inconformados. É natural, porque os inconformados são motores da mudança. E a mudança inevitavelmente nos afasta, mesmo que temporariamente, da zona de conforto.

Outro problema diz respeito à preservação da autoridade. Os inconformados são normalmente vistos como ameaças ao poder constituído. Quando fazem diferente ou contestam, são vistos como sabotadores do paradigma vigente.

No entanto, se tratamos aqui da magia da gestão, convém salientar que os melhores líderes são justamente aqueles que compreendem os inconformados e os convertem em aliados no necessário processo de inovação, tão benéfico quanto urgente.

Mas por que, afinal, devemos prestar atenção a esses “subversivos” da atividade corporativa? No que podem contribuir para o avanço das organizações?

Primeiramente, eles são os tratores que derrubam as velhas paredes do pensamento antiquado. Já em 1942, o economista Joseph Schumpeter elogiava os empreendedores responsáveis pela destruição criativa, isto é, aqueles que pulverizavam padrões e forneciam fôlego para o desenvolvimento da economia capitalista.

Essa contribuição “destrutiva”, segundo ele, ocorre com a introdução de novos produtos, métodos de produção e sistemas de comercialização, bem como por meio da abertura de novos mercados e da quebra de monopólios.

Esse é o perfil de muitos dos empreendedores que mudaram o mundo, como Nicola Tesla, que deu enorme trabalho a seu empregador, o inventor Thomas Edison. É o caso de Elon Musk, fundador da Tesla Motors, uma empresa dedicada a desenvolver veículos elétricos que começa a incomodar os senhores do mercado de carros movidos a combustíveis fósseis.

Mas quem são os inconformados? Não são, necessariamente, os super empreendedores que revolucionam setores inteiros da economia. Podem, ser, em menor grau, funcionários do chão de fábrica ou dos fundos do escritório, aqueles que, aqui e ali, arriscam-se a tentar novas soluções para problemas antigos.

O economista Michael Housman realizou uma pesquisa para tentar compreender por que determinados profissionais de atendimento ao cliente se mantinham em seus empregos por mais tempo que seus colegas.

Nessa busca, descobriu que os funcionários que usavam o Chrome e o Firefox para navegar na Internet mantinham-se 15% mais tempo no posto do que aqueles que usavam o Internet Explorer ou o Safari.

Imaginou que fosse apenas coincidência e, para tirar a questão a limpo, fez mais uma investigação. Assim, descobriu que a turma do Chrome-Firefox faltava 19% menos do que a turma do Explorer-Safari.

Seguiu em frente e descobriu que o primeiro grupo fechava mais vendas, em chamadas mais curtas. E mais: depois de 90 dias no emprego, esses profissionais alcançavam níveis de satisfação do cliente que o segundo grupo levava 120 dias para obter.

O trabalho de pesquisa continuou. E as conclusões são interessantes. Esse grupo do Chrome-Firefox não é mais bem-sucedido em função da qualidade dos navegadores que utilizam. Nem é porque supostamente sabem mais de tecnologia.

A diferença é que essa turma cultiva algum inconformismo. São pessoas que não aceitam o padrão estabelecido e ousam escolher o diferente. O Explorer vem no pacote do Windows. O Mac tem o Safari pré-instalado. Para usar Chrome ou Firefox é preciso rejeitar o padrão, aceitar algum risco e instalar um navegador diferente.

No trabalho, essas pessoas são, segundo o estudo, também saudavelmente divergentes. Buscam novos modos de vender e solucionar problemas dos clientes. Criam roteiros originais para fazer as coisas, corrigem protocolos, melhoram suas condições de trabalho e, assim, continuam no emprego por mais tempo.

O psicólogo organizacional Adam Grant analisa o fenômeno em seu livro Originais – como os inconformistas mudam o mundo. De acordo com ele, o que distingue a originalidade é a rejeição ao que é convencional e a investigação sobre a existência de opções melhores.

Muitos de nós começamos a vida como “originais”, como “inconformados”, mas acabamos dobrados pelo sistema. Dessa forma, perdemos a sensibilidade, rebaixamos o senso crítico, aceitamos os padrões e nos acomodamos no menos ruim.

Quer crescer? Procure entender seus talentos divergentes. Avalie com paciência suas razões, métodos e sugestões. E você, colaborador corporativo, procure uma abordagem apropriada para mostrar as vantagens do seu novo padrão. Prefira o diálogo educativo ao confronto. Valorize sua ideia por meio da conduta respeitosa.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 30/05/17