Bota-se o time inteiro no ataque? Ou não?



Na newletter da semana passada, tratamos de algumas características marcantes dos profissionais originais, aqueles que mudam empresas, revolucionam mercados e transformam o mundo.

Tomando como base os estudos compilados no livro Originais pelo psicólogo organizacional Adam Grant, analisamos perfis, atitudes e condutas daqueles que quebram padrões na busca de soluções.

Há, no entanto, uma crença geral de que os grandes empreendedores são sempre rebeldes audaciosos, que apostam todas as fichas em um único número da roleta e que, em busca da vitória, botam o time inteiro no ataque.

Pois bem, convém deitar a lupa sobre a questão. Joseph Raffiee e Jie Feng, pesquisadores da área de gestão, quiseram buscar respostas a uma simples questão: quando alguém começa um negócio próprio, é melhor manter ou abandonar o emprego convencional?

Entre 1994 e 2008, eles acompanharam cinco mil norte-americanos que tinham se convertido em empreendedores. Muitos abandonaram suas atividades e mergulharam de cabeça no novo negócio. Outros tantos, porém, mantiveram seus empregos regulares.

Tendemos a supor que o primeiro grupo é aquele que mais frequentemente alcança o sucesso. Pois o estudo mostrou o contrário: os que inicialmente se mantiveram em suas atividades apresentaram probabilidade 33% menor de fracassar do que aqueles que largaram o emprego.

Sim, o capitalismo envolve risco, o que é saudável, mas o bom planejamento pode reduzi-lo. Os precavidos tendem a construir negócios mais sólidos e sustentáveis. Os apostadores audaciosos, em oposição, tendem a tornar suas startups mais vulneráveis.

Cabem aqui alguns exemplos. Phil Knight, fundador da Nike, vendia seus tênis no porta-malas de um automóvel, mas seguiu atuando como contador por cinco anos.

Steve Wozniak fundou a Apple em 1976, em parceria com Steve Jobs, mas prosseguiu trabalhando como engenheiro da Hewlett-Packard até o ano seguinte.

Brian May virou guitarrista da banda Queen, mas demorou anos para interromper seus estudos de astrofísica. E Scott Adams, o sujeito que criou o Dilbert, passou ainda sete anos na Pacific Bell depois que seus quadrinhos começaram a ser publicados na imprensa.

Qual a lição? Os melhores empreendedores têm um plano B, agem com cautela, estruturam bem suas novas atividades e trabalham para tornar o negócio menos arriscado.

Malcolm Gladwell, o conceituado pensador que já entrevistei pela HSM, escreveu na revista The New Yorker: “muitos empreendedores correm riscos demais, mas são, em geral, os que fracassam e não aqueles que têm histórias de sucesso”.

O futebol é cheio de exemplos que ilustram essa questão. Sim, alguns técnicos ouvem os clamores da torcida, trocam volantes e zagueiros por atacantes e obtêm vitórias heróicas.

Muitos, no entanto, agem dessa forma e tomam goleadas históricas. O mesmo se pode dizer de atletas que, inconformados em tomar um gol, atiram-se imediatamente no ataque. E os brasileiros sabem bem no que resultam esses surtos de audácia.

Ha uma fórmula fechada? Obviamente, não! Mas é possível aprender com quem já fez e evitar o caminho equivocado.

Ouse, sempre, porque é necessário, mas com cautela. Estude o campo de jogo. Mapeie ameaças e oportunidades. Em tudo que for possível, resguarde-se, minimize o risco, exercite a responsabilidade e faça para durar.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 06/06/17