Acontece somente na Avenida Paulista?



Na semana passada, a violência contra a mulher foi o tema mais discutido nas redes sociais, e também nas mesas de jantar, nos círculos acadêmicos, nos encontros empresariais, nos bares e nas construções.

O vivo debate teve início depois que uma mulher sofreu uma agressão de cunho sexual em um ônibus que trafegava na Avenida Paulista. Horas antes, outro caso: uma escritora fora humilhada de forma análoga em uma unidade de transporte privado urbano.

Nestes momentos, as pessoas são levadas a acreditar em três premissas errôneas. A primeira é: algo imprevisível e fora do padrão ocorreu. A segunda: este é um fenômeno das ruas. A terceira: este é um problema das mulheres.

Na verdade, ocorrências dessa natureza se repetem, dia e noite, também no ambiente das residências, das instituições públicas e das empresas.

O tipo de agressão varia, mas há sempre graves danos e prejuízos para a mulher que sofre a ofensa, mesmo que ela não externe seus sentimentos.

Ela pode hesitar em sair novamente à rua ou em frequentar aquele clube em que foi assediada. E ferida em sua autoestima pode simplesmente economizar os talentos que fariam prosperar sua carreira e a própria companhia em que trabalha.

O educador e escritor norte-americano Jackson Katz, especializado em questões de gênero e violência, costuma dizer que o principal entrave ao avanço civilizatório neste campo é a ideia de que este seja um problema das mulheres.

Segundo ele, os casos de abuso se mantêm porque muitos homens, mesmo adotando posturas corretas e respeitosas, omitem-se do debate e não participam dos processos educativos preventivos.

Em um ambiente de distanciamento e mínimo engajamento, surgem as perguntas de sempre: “o que ela estava usando naquela festa?” Ou “por que ela estava entre aqueles homens?”.

Segundo Katz, o pensamento parece destinado a encontrar alguma culpa na vítima. “Toda a nossa estrutura cognitiva é programada para formular perguntas sobre as mulheres e suas escolhas, sobre o que estão fazendo, pensando e vestindo”, afirma.

Quando Maria é ofendida ou agredida por João, as indagações são preferencialmente relativas à conduta de Maria, e não às motivações de João.

Katz adverte que a cultura da violência não está restrita ao ambiente masculino. Ela se estende por todo o tecido social, na difusão de conceitos equivocados de supremacia.

Mas o que os homens podem fazer para mudar o curso da história? O educador respondeu poucos anos atrás em uma palestra do TED.

– No que se refere aos homens e à cultura masculina, o objetivo é fazer com que os homens que não são agressores contestem os homens que são. E quando digo agressor, não me refiro apenas aos que batem em mulher. (…) Então, por exemplo, se você está em um grupo de homens jogando pôquer, conversando, divertindo-se, e outro indivíduo faz um comentário sexista, degradante ou vexatório sobre as mulheres, em vez de compactuar com a piada ou de fingir que não a ouviu, é preciso que diga: "Ei, isso não tem graça. Sabe, você poderia estar falando da minha irmã. Dá para fazer piada sobre outra coisa?”

Se agirmos assim, conforme o pensamento de Katz, faremos com que os sexistas percam o status e deixem de influenciar as novas gerações. Nas escolas, instituições e empresas em que essa conduta é adotada, reduz-se o número de agressões e as mulheres encontram menos obstáculos para exercer protagonismo.

O ex-presidente norte-americano Jimmy Carter tem se dedicado também a trabalhar o tema em suas palestras e cursos. Segundo ele, é ainda uma constante, no mundo inteiro, o abuso de mulheres e meninas, muitas vezes sustentado pela interpretação errônea de livros sagrados. Diz ele:

– Se um marido abusivo ou um empregador, por exemplo, quer enganar as mulheres, ele pode dizer: "Se as mulheres não são semelhantes aos olhos de Deus, por que devo tratá-las como meus semelhantes? Por que devo pagar a mesma remuneração para o mesmo tipo de trabalho?"

Mulheres ainda são vendidas como escravas sexuais em várias partes do mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), todos os anos, outras milhares são vítimas dos chamados “crimes de honra”, cometidos por parceiros ou parentes próximos.

Em 2015, a US Equal Employment Opportunity Commission (EEOC) investigou 6.822 casos (83% sofridos por mulheres) de suposto assédio sexual, considerando procedentes as reclamações em somente 25% deles.

Além disso, segundo uma pesquisa da YouGov/Huffington Post, três quartos das pessoas que sofreram assédio sexual no trabalho não denunciaram o caso.

No início dos anos 2000, escrevi sobre o processo de “mulherização” das empresas e do mundo do trabalho. Essa saudável e necessária revolução está ocorrendo, oxigenando o modo de produção capitalista e gerando benefícios extensivos a toda a sociedade.

É necessário, no entanto, que façamos valer a ideia de empatia, de equidade e de respeito às diferenças. Quando agimos assim, no dia a dia, contribuímos para tornar a Avenida Paulista mais segura e mais humana. Colaboramos para fazer o mundo inteiro melhor.

Afinal, a teoria, na prática, funciona!

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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terça-feira, 05/09/17