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Como sobreviver à revolução no mundo do marketing

segunda-feira, 26 de abril de 2010

 

fonte: Artigo – Edição Especial Profissionais de Marketing 2010 Meio & Mensagem

Não, não se trata simplesmente de evolução ou de ajuste de procedimento destinado a acompanhar o crescimento da economia. Vivenciamos uma revolução. De verdade!

Hoje dificilmente se constrói, de cima para baixo, uma marca forte ou a liderança no mercado. Já se foi o tempo em que se lançava uma sandália de plástico, logo convertida em febre nacional por conta de sua exposição na novela global.

Já se foi também a época em que os profissionais de marketing entregavam a conta a uma grande agência e sucumbiam à primeira idéia defendida pelo publicitário de discurso convincente, bom vendedor.

Num passado até recente, certas agências criavam um arsenal simbólico de demonstrações de poder e sofisticação. Além disso, excediam-se em performances de bajulação. Inflavam balões coloridos e egos.

Assustados ou encantados com esse teatro, muitos profissionais viam-se incapazes de barrar programas de comunicação que torravam suas verbas e, muitas vezes, não produziam o resultado esperado.

A máxima vigente era de que 50% dos investimentos em marketing seguiam diretamente para o lixo, enquanto os outros 50% produziam algum resultado. E o pior, raramente se sabia com certeza quais dos 50% tinham produzido algum efeito.

Esse cenário, felizmente, vem mudando rapidamente. Ingressamos de forma definitiva na era do marketing de resultados. Nas empresas que praticam uma gestão inteligente, como foco na expansão contínua do negócio, o investimento precisa ter retorno programado, seja na construção de uma marca forte, seja no incremento de vendas, seja na conquista da liderança de um segmento de mercado.

Vale ressaltar que essas experiências de êxito são construídas de baixo pra cima. Hoje, a ordem é estabelecer uma integração harmônica entre produção, logística, vendas, controle de dados, finanças e sistemas de comunicação interna e externa. Tudo e todos devem estar sintonizados na mesma frequência e tomar parte num esforço concentrado para a constituição de organizações sólidas e sustentáveis. 

Sua lição para ontem.

Muda, portanto, radicalmente o papel do profissional de marketing, assim como se alteram os paradigmas de construção da carreira. Há uma série de novos atributos que devem ser urgentemente considerados pelos executivos que almejam alcançar reconhecimento e sucesso.

E ouso repetir: compreender essa mudança de cenário é tarefa urgente. É lição para ontem!

Quem abriu os olhos, já sabe: foi-se o tempo dos “marqueteiros salvadores da pátria”, dos meramente táticos, quebradores de galho, que realizam suas aventuras milionárias sem a base da estatística e sem o reconhecimento in loco de seu público-alvo.

Quer franqueza absoluta? Também está em extinção o profissional-pavão, aquele que gasta mais tempo e recursos para se marquetear do que para promover a empresa e suas marcas. Se você acha que pode ser maior que a companhia, está cavando sua sepultura. Hoje, os bons CFOs e CEOs estão de olho nas figuras circenses que gastam mundos e fundos em benefício próprio.

Está chegando também o fim da linha para os admiradores de umbigo, aqueles que consideram como prioridades suas próprias demandas de consumidor. São os idealizadores de campanhas para vender sistemas multi-integrados-hiper-super-3D-mega-holográficos, produtos e serviços que atendem a seus próprios interesses ou de seu restrito grupo de confrades.

Revogou-se também a “lei” do cumprimento de metas. A ordem agora é superar as metas, pensando-se quatro ou cinco lances adiante, como o bom jogador de xadrez. Afinal, a concorrência também se move, raciocina e monta suas estratégias.

E dá para fazer tudo isso sozinho? Não, é melhor tirar o cavalinho da chuva. Não dá! Mesmo para quem abdique de dormir. Para manter ligado permanentemente o radar e rastrear tendências, o profissional de marketing precisa ter colaboradores habilitados, comprometidos e capazes de assumir iniciativas. Ou seja, precisa constituir amplos territórios de autonomia.

Então, entenda: se você trabalha numa grande organização, fazer o time jogar é mais importante do que a performance individual. O marketing dos grandes é cada vez mais tarefa cooperativa, desenvolvida em grupos harmônicos, em que todos fazem parte da epiderme sensível e dos pelotões de ataque.

Logicamente, não se espera que uma carreira decole sem o conhecimento básico das técnicas e ferramentas do marketing clássico. Não leu Kotler? Vá ler, correndo.

E, depois, apure os sentidos para compreender as mudanças no mundo. Tudo gera impactos nas relações de mercado, da mania juvenil do cosplay às reações dos jovens chineses à censura na Internet. Então, logo de manhã, leia toda a primeira página dos portais virtuais. Tudo lá diz respeito a você e sua atividade.

Esse saber é fundamental para que você crie valor nos nichos esquecidos pela concorrência.

De forma especial, preste atenção no marketing on-line. Monitore criteriosamente as redes sociais, todas elas, não somente aquela da qual você faz parte. Acredite: ali, as pessoas dizem coisas que você não sabe. E deveria saber.

Aposte também num aperfeiçoamento de operações e ações táticas de envolvimento de clientes consolidados e futuros. Preste atenção: hoje, as pessoas não são meros receptores, conforme os cânones da Semiologia. Aquele que compra também é emissor, meio e mensagem. E mais: pode ser colaborador ou destruidor.

Ele pode elogiar sua empresa no Orkut, mas pode avacalhar com seu trabalho por meio de um vídeo no Youtube. E aí, vai encarar?

Certa vez, na HSM, recebi Tom Peters e Michael Porter. O primeiro sugeria que esquecêssemos tudo e mergulhássemos de cabeça na Internet. O segundo, mais conservador, dizia que esta era apenas mais uma mídia.

Os dois tinham razão. E também não tinham. Esta é a mídia do presente, que deve se aperfeiçoar no futuro, num processo de convergência com o rádio, a TV e a telefonia. Deve ser utilizada como canal e ferramenta.

O êxito no uso desse recurso, entretanto, depende de estratégias customizadas, capazes de responder a cada desafio particular na promoção de marcas ou produtos. É preciso, por exemplo, trabalhar pela universalização dessas ferramentas e fazer com que sejam amigáveis ao maior número de possíveis clientes, da tranquila vovó Emerenciana ao seu plugado neto Bob.

Se os profissionais de marketing são craques em encontrar clientes, é também preciso que desenvolvam técnicas para que sejam encontrados por eles. Cunhado pelo Google, o termo “encontrabilidade” exige um novo olhar e novas posturas ativas de todos nós que fazemos marketing.

Mas não para por aí. Jamais descuide do marketing para os investidores. Muitas vezes, são eles que garantem seu emprego. Ou não? As práticas de RI serão fundamentais para você nos próximos anos.

Olhe também para dentro de casa, todos os dias. Desenvolva seu próprio endomarketing, baseado nas singularidades da cultura de sua empresa. É preciso envolver todos os seus pares na missão de valorizar a marca e de atender bem os clientes.

Seu trabalho institucional vira pó se os companheiros da fábrica disserem nos bares da vida que os televisores vendidos pela empresa são produzidos por gente inepta, num barracão com goteiras. Seu sucesso também está ameaçado quando as moças do SAC disserem: “caiu meu sistema, não posso responder a sua dúvida, senhor”.

O novo profissional entende a necessidade da propaganda. Evidente. Mas não nega a importância da comunicação social, do marketing integrado e das importantes ação classificadas como “below the line”.

Por fim, lembre-se. Você será outro amanhã. Sofrerá mutações. Mas não quer dizer que precise abdicar de seus valores e princípios. Eles são fundamentais ao prestígio da marca de sua empresa e também à sua marca pessoal. Ética: precisa ser o item número um da sua pauta, daqui para sempre!

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Valor exige pagamento.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Há valores de dois tipos. O primeiro é o valor econômico. Está na esfera do concreto. O segundo é o valor ético. Está na esfera do conceito.

Como dois fios fortemente entrelaçados, constituem o firme tecido das relações humanas.

Recordo-me de 2008, quando todo mundo queria assistir ao filme “Tropa de Elite”. Antes que chegasse aos cinemas, no entanto, uma versão pirata em DVD vazou para o mercado negro.

Num sábado à tarde, cheguei em casa e encontrei meu filho e um de seus amigos. O rapaz logo anunciou que conseguira uma reprodução do filme e que poderíamos assisti-la em avant-première.

Cansado, não dei muita bola para a proposta. Subi para o andar superior e tomei uma ducha refrescante.

Quando desci, relaxado, a TV já exibia as primeiras cenas da película. Sentei-me no sofá e acompanhei com atenção os 116 minutos seguintes da trama filmada por José Padilha.

Apreciei muito o trabalho. Cerca de um mês depois, num jantar com amigos, iniciou-se um debate sobre os segredos daquele sucesso de bilheteria. De repente, alguém perguntou:

- Julio, em que cinema você assistiu?

Por um instante, fiquei paralisado. Nem me lembro o que respondi. No caminho para casa, refleti sobre os fatos. Alguém havia investido tempo e dinheiro num produto destinado a entretenimento, informação e esclarecimento. Eu, no entanto, havia usufruído de graça, sem pagar um tostão.

No dia seguinte, fui até o cinema de um shopping, entrei na fila, comprei um ticket e, imediatamente, o rasguei. Vi a moça do guichê boquiaberta. Parecia querer dizer: “olha aí mais um maluco”.

Naquele momento, tirei um peso dos ombros. Estava novamente em paz com a minha consciência. Havia unido os dois valores.

Quem recebe um beneficio, deve pagar o valor estipulado no acordo entre as partes. Respeita-se, assim, o trabalho e a dedicação do outro. Quem deseja receber com justiça, precisa pagar com justiça.

E você, está devendo para alguém?

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Bolinhos, desejos e necessidades.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os amigos leitores talvez não conheçam a história de minha primeira experiência como vendedor. Um dia, pulei o muro nos fundos de nossa casa, na Vila Carioca, e fui oferecer bolinhos de bacalhau para o povo que se reunia no campo do Flor da Vila.

Sem muito esforço, a obra-prima culinária de minha mãe conquistou o paladar dos torcedores. Em pouco tempo, a demanda superou a oferta. Havia sempre alguém que, com água na boca, via a bandeja esvaziar-se num degrau abaixo.

Ora, mas por que, afinal, obtivemos tanto sucesso com aquela receita?

Primeiramente, porque estávamos oferecendo a coisa certa no lugar certo. Na platéia, bate sempre aquele desejo de mastigar alguma coisa.

No caso de uma praça esportiva popular, a pizza parecia não ter o formato adequado ao consumo imediato. O mesmo se podia dizer do prato de comida.

Bolinhos, no entanto, apresentavam a configuração prática para quem estava mais preocupado em comemorar gols ou xingar o juiz.

Sem pensar muito na teoria, contemplávamos desejos e necessidades daquele cliente específico.Nos tempos atuais, diferentes valores agregados determinam a percepção do produto.

Philip Kotler, grande guru do marketing, adverte que os consumidores consideram, cada vez mais, o uso sábio dos materiais e a preocupação com a sustentabilidade do negócio.

Quem desperdiça e polui acaba por reduzir o desejo do cliente, mesmo que a necessidade se mantenha.

O produto “irresponsável” do ponto de vista social e ambiental ganha uma aura de maldição.

Naquela época do comércio de bolinhos, não pensávamos em gestão de pessoas ou preservação ambiental.

No entanto, intuitivamente, fazíamos a coisa certa, sem sujeira e sem desperdício. Até as cascas de ovos viravam adubo para as plantas do quintal.

E era esse jeito responsável e caseiro que fazia mais apetitosa nossa iguaria popular.

E você, amigo leitor, o que tem feito para atender necessidades e atiçar a vontade do consumidor? Já notou que as práticas de sustentabilidade podem reativar o desejo do seu cliente?

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Artigo publicado Revista diVino “Vinho e Negócios”

sexta-feira, 19 de março de 2010

 

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Não é bolinho não!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 Artigo publicado pela HSM online.

Quando buscamos os profissionais mais antigos do mundo, podemos cogitar coletores, caçadores, fabricantes de armas ou soldados. Esses todos, de certa forma, estão ligados diretamente à matéria. Constroem ou destroem alguma coisa. O pioneiro nas artes laborais do intangível, entretanto, é o vendedor.

Ele não polia pedras, não plantava cebolas e não acertava  ninguém com tacapes. Seu trabalho estabelecia uma ponte simbólica entre o mundo do concreto e o das coisas do pensamento. Lá nos primórdios do Neolítico, ele levava cereal ao pastor e carne ao agricultor. Por meio da fala ou do gesto, recordava as pessoas sobre suas necessidades e desejos.

O vendedor foi, portanto, o primeiro efetivo agente de difusão do processo civilizatório. Façamos, pois, uma lista de suas virtudes pioneiras.

1. Ele estudava a produção. Sabia o que se destinava ao consumo e o que era excedente.

2. Ele estudava a demanda. Sabia o que faltava para o consumo em cada comunidade.

3. Ele estudava a distribuição da riqueza. Sabia quais bens de A poderiam ser trocados por bens de B.

4. Ele estudava a geografia e os meios de locomoção. Sabia o que podia ser transportado do ponto A para o ponto B

5. Ele inventou, assim, a própria economia. Estabeleceu padrões comparativos para os bens e, depois, constituiu as referências monetárias primitivas.

Ora, se este artigo teoricamente versa sobre negociação, por que será que estou tratando exclusivamente de vendas e vendedores?

A razão é simples. A arte da negociação nasceu com os vendedores. E os vendedores nasceram com a arte da negociação.

Naqueles tempos severos das primeiras comunidades humanas, os conflitos tinham quase sempre uma motivação objetiva. Os clãs disputavam fontes de água, acesso a rebanhos selvagens ou fontes básicas de matérias-primas. Portanto, a primeira guerra surgiu do desequilíbrio entre a demanda e a disponibilidade de recursos naturais.

Os primeiros negociadores tiveram de buscar soluções para uma exploração compartilhada do espaço físico. O conciliador da aurora da civilização vendeu uma ideia: o benefício da paz. A turma de A passou a colher as tâmaras do lado norte da montanha. A turma de B foi convencida a fazer o mesmo do lado sul.

Esses diplomatas ancestrais logo perceberam que não bastava resolver problemas isolados. Os humanos tinham variados desejos e inúmeras necessidades, cada vez mais complexas. Dessa forma, de tempos em tempos, o ódio se alastrava, eclodia um conflito e as pessoas morriam aos montes.

Havia quem tinha peles de sobra e quem morria de frio. Os bem-trajados, muitas vezes, viviam doentes por conta da desnutrição. Inquietos, cobiçavam as frutas suculentas e vitaminadas de seus vizinhos pelados.

Para evitar a guerra, as boas cabeças primitivas investiram numa mágica solução integral: o comércio. Alguém teve a feliz ideia de trocar peles de urso por cestas de morangos silvestres e maçãs. Sucesso estrondoso!

O comércio e a paz

Por isso, costumo dizer que a negociação se constitui na maneira mais efetiva e democrática de se promover a concórdia. Quem não negocia, vive permanentemente na insegurança e na dificuldade. E ouso afirmar que o comércio se apresenta como uma das mais formidáveis expressões da civilidade.

Toda negociação nasce da busca por uma simetria. Isso quer dizer que as partes buscam uma forma de dividir o benefício gerado na troca de compromissos ou produtos.

Além disso, todo acordo legítimo tem por base a liberdade. Os interessados podem dizer “sim” ou “não” a cada proposta. E exercitam-se na dinâmica do debate, alterando posições de acordo com os argumentos dos oponentes ou parceiros.

Houve um tempo em que o fornecedor detinha o maior poder de barganha. Numa época de fome, por exemplo, o dono de um saco de batatas fazia a regra. Se não fosse assassinado pelos famintos, certamente auferiria gordos lucros no processo de venda.

A evolução e a multiplicação dos meios de produção, entretanto, aumentou o número de fornecedores e instituiu a livre concorrência. Hoje, na maior parte dos segmentos, há muitas pessoas ou corporações que oferecem o mesmo produto ou serviço.

No imaginário popular, portanto, existe a crença de que o poder numa negociação comercial deslocou-se para o cliente. Acredita-se que ele pode ou não comprar, e que isso define a história das trocas econômicas.

Trata-se de ledo engano. Quem vende também tem seus trunfos, escorados em localização, velocidade, qualidade e customização. Se temos demandas cada vez mais singularizadas, é certo que as companhias capazes de oferecer o singular também podem estipular condições especiais para o estabelecimento de negócios.

Elas podem, por exemplo, determinar preços que premiem o ineditismo, a eficiência, o rendimento e o estilo diferenciado de seus produtos.

Portanto, o poder da negociação, hoje, mora na credibilidade. E isso vale para quem vende e para quem compra. Tem poder quem vende o melhor e entrega com rapidez. Tem poder quem compra e, na sequência, cumpre a promessa de pagamento.

Mas como gerar credibilidade? Prestando atenção ao básico, ao comoditizado, mas tendo cuidado total com os detalhes. São eles que constroem ou dizimam uma relação. Isso vale para acordos conjugais, negócios e disputas diplomáticas.

Vale lembrar o caso de um espetacular vendedor de “ações da paz”. Trata-se de Jimmy Carter, que presidiu os Estados Unidos entre 1977 e 1981. Por conta de seus esforços, celebrou-se, em 1978, o Acordo de Camp David, entre Israel e Egito.

Carter também assinou um tratado para devolução do canal entre-oceanos ao Panamá, estabeleceu relações diplomáticas com a China e convenceu a então União Soviética a assinar um protocolo para a redução de armas nucleares. É lícito dizer que muito da relativa paz da qual gozamos hoje se deve ao trabalho desse líder democrata.

Nos EUA, entretanto, o simpático presidente nem sempre tem seus méritos reconhecidos. Onde teria pecado? Nos detalhes.

Carter não constituiu uma linha de comunicação rápida, efetiva e consistente com o público norte-americano. Em 1979, foi acusado de ineficiência no caso do sequestro de funcionários da embaixada norte-americana em Teerã, no Irã. Nesse mesmo ano, muitos de seus críticos consideram que não reagiu com o devido rigor no caso da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.

Pronto! Os detalhes foram fundamentais para tirar o brilho da figura do ex-presidente, que até hoje se dedica a causas humanitárias e serve de mediador em conflitos internacionais. Segue sendo um astucioso vendedor da paz.

Negócios no campinho de várzea

No âmbito corporativo, cada vez mais o detalhe faz a diferença. Por isso, os estudos de reputação levam em conta uma longa lista de categorias, que incluem qualidade de produtos e serviços, atendimento, velocidade nas entregas, apoio pós-venda, comunicação com o público, ambiente interno de trabalho, resultados financeiros, relação com acionistas, preocupação com o meio-ambiente e responsabilidade social.

Antigamente, o caixeiro-viajante descia do trem e valia-se somente de sua lábia para convencer as clientes da qualidade de seus lenços de seda. Hoje, o vendedor gabaritado precisa conhecer a complexa malha de relações entre a empresa que representa e o cliente. Afinal, quem compra sabe muito mais e não se deixa enganar por conversa fiada. É preciso mostrar virtudes e prová-las.

Quando eu tinha sete anos, meu pai vendeu seu bar e passamos por um período de dificuldades financeiras. Atrás de casa, na Vila Carioca, em São Paulo, havia vários campos varzeanos de futebol, entre eles o Flor da Vila.

Um dia, resolvi pular o muro e tentar vender os deliciosos bolinhos de bacalhau preparados por minha mãe. Então, tracei uma estratégia de abordagem. Primeiramente, resolvi ir até os possíveis consumidores, para que não precisassem se desligar do ludopédio. E isso já se constituiu um diferencial importante.

Depois, deliberei arrumar os bolinhos numa bandeja, sobre uma toalha bem alva, o que ressaltava nossa preocupação com a higiene. Por fim, procurei levar os lotes logo após a fritura, quando a fumacinha ainda pudesse seduzir os torcedores pelo olfato. Resultado: vendi muito!

Lógico, os bolinhos eram deliciosos, e me deixam com água na boca ainda hoje, 45 anos depois. Mas é certo que os detalhes fizeram diferença e garantiram a confiança no jovem vendedor.

Recordo-me que, em alguns jogos, acabava-se gerando uma demanda reprimida. Minha mãe, num humilde fogão doméstico, não dava conta de produzir os bolinhos que eu podia vender.

Agora, fica a pergunta: quanto se cobrava pelo bolinho? Em nosso caso particular, era preciso fazer muita conta. Somávamos os valores da farinha, dos ovos, do sal, do bacalhau, dos temperos, da água, do gás, da lavagem constante das toalhinhas e também do esforço humano. O preço contemplava também o know-how culinário diferenciado de minha mãe.

Mas essa conta, no fim, tinha um limite de aplicação: a disponibilidade financeira dos torcedores do campinho. Obviamente, não era possível reproduzir o valor que seria cobrado num conceituado restaurante lusitano. Estabelecia-se, assim, um preço negociado, que levava em consideração o investimento, nossa expectativa de lucro e a capacidade de investimento do povo da arquibancada.

A atenção aos detalhes e ao bom senso, pois, garantem a credibilidade de um negociador. Ele pode estar se dedicando a um importante acordo de governabilidade em Chipre ou vendendo pastéis na feira-livre. As regras são, basicamente, as mesmas.

Convém frisar que o fracasso aguarda o negociador que atende a todas as exigências do contendor. Mas o mesmo ocorre àquele que as despreza na totalidade. O bom diplomata busca convergências.

Comecei minha vida como vendedor de bolinhos. Depois, cheguei a bater de casa em casa, oferecendo enciclopédias da Editora Bloch… Aos poucos, fui mudando de vida. Estudei, virei professor, gestor de empresas, palestrante e escritor.

Mesmo assim, admito que nunca deixei de lado a atividade de negociante. Agora, vendo mais ideias e conhecimentos. Mas sigo buscando uma visão clara sobre os detalhes de cada operação. Tenho olhos no produto, no cliente e, principalmente, em mim mesmo.

Mirando o passado, recordo um episódio interessante. Em certo momento, minha então futura sogra inquiriu a filha: “Mas você vai se casar com um vendedor?” Inconformada e incrédula, ela manifestava uma ideia cristalizada sobre esse tipo de profissional. Era tido como um chato e embromador, que não tinha ganhos fixos.

O tempo passou e os vendedores se converteram em negociadores, figuras vitais às corporações. Valorizados pelos gestores, são personagens-chaves da economia.

Repaginados, aprimoraram suas virtudes de comunicação e desenvolveram o conhecimento técnico daquilo que oferecem. Ao mesmo, são radares móveis das empresas, captando os desejos do consumidor e as tendências do mercado. São, portanto, pesquisadores de campo cada vez mais qualificados.

Para os moços da área que pretendem se casar, portanto, vale o conselho: alterem a denominação profissional. Nos jantares com o sogro e a sogra, apresentem-se como negociadores. Afinal, este é, hoje, novamente, o melhor termo para designar os homens de vendas. Outra dica: à mesa, comportem-se bem e não descuidem dos detalhes. Negociem a própria imagem.

 

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