Quando o resultado NÃO é o lucro direto.

Há quinze dias, escrevi neste blog sobre a formação do Grameen, o Banco do Povo, famoso sistema de micro-crédito instituído por Muhammad Yunus em Bangladesh.

Na oportunidade, fiz menção às atividades empresariais que não visam ao lucro imediato e direto. São ações com foco, por exemplo, em nutrição infantil, redução de desigualdades, formação empreendedora e geração de renda.

Nesses casos, a ideia é capacitar cidadãos, promover economicamente comunidades e, no futuro, constituir mercados consumidores.

É o caso da Grameen Danone Foods, que iniciou suas atividades em 2006, na categoria de “social business enterprise”, com uma fábrica no distrito de Bogra, a 230 quilômetros de Dhaka, capital do país.

A solenidade de lançamento do projeto teve a participação do craque francês Zinedine Zidane e ampla cobertura da mídia.

O objetivo é fornecer às crianças de Bangladesh os nutrientes básicos para o processo de crescimento.

A joint venture produz um iogurte enriquecido ao preço médio de 0.06 Euro, que até os mais pobres podem pagar. O “Shakti Dói”, como é chamado, contém proteínas, vitaminas, ferro, cálcio, zinco e outros micronutrientes.

O projeto não se resume a combater a desnutrição, impactando toda a cadeia de valor.

O leite é comprado de micro-produtores locais e a estrutura do negócio é desenhada para gerar o maior número possível de empregos. As vendedoras distribuem o iogurte de porta em porta e recebem 10% de comissão.

A Grameen Danone Foods já criou 1,6 mil empregos num raio de 30 quilômetros a partir da fábrica pioneira.

A questão ambiental também está contemplada. A energia solar é utilizada para aquecer a água da instalação industrial. Além disso, as embalagens do produto são totalmente biodegradáveis.

Reunidas, as ações do Grameen Danone estão alinhadas com o Millenium Development Goals, da ONU, cujo objetivo é erradicar a pobreza.

Os lucros obtidos com as primeiras unidades financiam a construção de novas fábricas. Criou-se o Danone Communities Fund para oferecer suporte a essas iniciativas de expansão.

O projeto precisa ser economicamente viável, mas suas metas são diferentes daquelas dos empreendimentos convencionais.

Dessa forma, o sucesso não é medido unicamente por critérios financeiros. A saúde do negócio está representada na redução da fome, na criação de empregos diretos e indiretos e na proteção do meio ambiente.

No final do ano passado, a Global Alliance for Improved Nutrition divulgou uma análise preliminar dos resultados do projeto, atestando o impacto positivo no crescimento e na performance cognitiva das crianças.

Conforme exponho em meu livro A Economia do Cedro, é por meio de projetos dessa natureza que podemos construir um mundo melhor, mais justo, com mais comércio e menos guerras.

Somente crianças bem nutridas são capazes de estudar e aprender. E são elas que vão, no futuro, estabelecer negócios inovadores ou se agregar como mão de obra especializada nas empresas.

Investir em pessoas é o que o capitalismo em crise pode fazer para gerar mercados e girar a roda da economia.

Este, no entanto, nem é o objetivo mais importante do projeto. A ideia mais nobre é valorizar a vida humana e proteger a nossa grande casa planetária.

Carlos Júlio Carlos Júlio: professor, palestrante, empresário e escritor. Leia mais artigos do Magia da Gestão. Siga @profcarlosjulio no twitter e seja fã no Facebook.
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sexta-feira, 16/03/12