O destino, o caminho e a velocidade

* Carlos Alberto Julio

A bom líder fixa objetivos e planeja (todos os dias) como atingi-los, aproveitando da melhor maneira os recursos disponíveis, sempre no menor período de tempo possível.

Mais que idealizar um destino, o gestor cria condições reais para que a organização o alcance. Logo, a escolha de um caminho e a velocidade de deslocamento são, em substância, o “como” de seu plano.

Em tempos de crise, é fundamental uma reflexão sobre essa combinação de tarefas administrativas. E, nesse particular, é particularmente necessário repensar condutas no que se refere à elaboração de orçamentos.

Sentiu um arrepio na espinha? Tudo bem… Sabemos que o tema normalmente afugenta muitos de nós, brasileiros, acostumados a improvisar, a esperar para ver e a desprezar métodos rígidos de controle.

Procure encarar, no entanto, essa aventura. Comecemos com uma rápida viagem histórica. O orçamento é mais antigo que o próprio dinheiro. Essa expressão metódica do planejamento, envolvendo receitas e despesas num tempo determinado, surge no Neolítico, cerca de nove milênios antes de Cristo, quando os homens estabelecem os primeiros assentamentos agrícolas, começam a criar animais em confinamento e erguem os primeiros núcleos fixos de povoamento.

O orçamento tinha a ver, por exemplo, com planejar minuciosamente as ações destinadas a constituir o estoque de víveres para o período de inverno. As despesas estavam associadas ao gasto futuro de lenha, feno, comida e outros suprimentos necessários à sobrevivência dos clãs. Quem orçou corretamente prosperou. Aquelas comunidades que descuidaram do planejamento acabaram extintas.

A administração moderna tem como base a elaboração adequada de orçamentos. Ele mostra o destino, o roteiro e o ritmo de avanço, de acordo com o capacidade da organização e suas intersecções com o ambiente externo, no qual se destacam elementos como demanda, oferta de crédito e ação de outros players do mercado.

A partir da Revolução Industrial, desenvolveram-se várias técnicas para a elaboração de orçamentos. Quanto mais diversificada e dinâmica for uma economia, mais complexo será o processo de planejamento.

Um orçamento adequado foca em prioridades estratégicas e dirige a quantidade apropriada de recursos a cada operação. Se perfeito, o menor investimento possível gerará a maior receita possível. Os melhores sistemas permitem acertos pontuais. Isso se dá pela eliminação de condutas operacionais inadequadas e também pela adaptação aos movimentos do mercado.

Ou seja, o orçamento deve valorizar e potencializar o capital da empresa. Não por acaso, o termo em Inglês para orçamento é “budget”, que na Idade Média tinha o sentido específico de bolsa de couro ou carteira, isto é, o lugar para se guardar ouro e dinheiro, os valores que financiam o processo de multiplicação da riqueza.

Hoje, muitas organizações perderam a noção do valor estratégico do orçamento. Fazem-no burocraticamente, por obrigação funcional. A prática normal é fazer o budget 2.009 com base no que ocorreu em 2.008.

Parece a conduta mais sensata, mas se impõe aqui a pergunta: como você espera ter resultados diferentes se faz tudo sempre igual? Ou será que você se contenta em obter resultados ligeiramente melhores que aqueles do ano anterior?

Um dos segredos de empresas que experimentam fases de expressivo crescimento é a elaboração de orçamentos baseados numa checagem fina de disponibilidades, necessidades e condições externas. Quando partimos de um planejamento baseado somente no ocorrido e não na dinâmica do mercado, podemos errar tanto para mais quanto para menos.

Você que voltou de férias agora terá que entregar um orçamento. Mas o fez como? Acreditando na crise? Ou não? Com os números dos quais dispunha até Outubro, havia céu de brigadeiro. Tudo era favorável ao crescimento. Já no início de Dezembro, tudo era pessimismo. Nuvens negras pairavam sobre a economia mundial. Agora, em Janeiro, sabemos que chove mais ali do que aqui. Alguns setores estão sendo mais castigados que outros pela crise. E agora?

Com base nesses novos dados, pratique a humildade. Contemple os cenários e reveja o que for possível. Afinal, o que conta mais: a comprovação de seus talentos de profeta ou a precisão de seu planejamento?

Em tempos de imprevisibilidade, é preciso efetuar acertos e adequações com frequência. Se você tem certeza do destino, é hora de rever o roteiro e repensar o tema velocidade. Pode ser hora de acionar o freio, mas também pode ser a oportunidade de pisar no acelerador.

Para além das técnicas administrativas e contábeis, vale o bom senso. Sim, fique atento às ameaças ao seu negócio. Proteja-se. Recicle processos. Não esbanje. Controle. Mas exercite o olhar crítico sobre as manchetes dos jornais. Se ceder ao medo, seu orçamento, mesmo que refeito, poderá imobilizá-lo. Os que são tomados pelo receio costumam atemorizar os colaboradores, interromper bons projetos e até mesmo demitir.

Essa atitude costuma roubar da empresa a energia necessária para superar a própria crise, iniciando uma espiral de decadência.

O urbanista Lucio Costa costumava dizer: “a única coisa certa do planejamento é que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas”. O remédio é planejar de novo, e sempre, enquanto se faz. Portanto, olhe, pense, reflita, execute, ajuste e, principalmente, saiba que você tem o sagrado direito de escolher seu melhor destino.

 
* Carlos Alberto Júlio é presidente da Tecnisa e membro do Conselho de Administração da HSM do Brasil e Camil Alimentos.

 

Contato: julio@carlosjulio.com.br

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segunda-feira, 18/05/09

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