Arquivo de janeiro de 2010

Não é bolinho não!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 Artigo publicado pela HSM online.

Quando buscamos os profissionais mais antigos do mundo, podemos cogitar coletores, caçadores, fabricantes de armas ou soldados. Esses todos, de certa forma, estão ligados diretamente à matéria. Constroem ou destroem alguma coisa. O pioneiro nas artes laborais do intangível, entretanto, é o vendedor.

Ele não polia pedras, não plantava cebolas e não acertava  ninguém com tacapes. Seu trabalho estabelecia uma ponte simbólica entre o mundo do concreto e o das coisas do pensamento. Lá nos primórdios do Neolítico, ele levava cereal ao pastor e carne ao agricultor. Por meio da fala ou do gesto, recordava as pessoas sobre suas necessidades e desejos.

O vendedor foi, portanto, o primeiro efetivo agente de difusão do processo civilizatório. Façamos, pois, uma lista de suas virtudes pioneiras.

1. Ele estudava a produção. Sabia o que se destinava ao consumo e o que era excedente.

2. Ele estudava a demanda. Sabia o que faltava para o consumo em cada comunidade.

3. Ele estudava a distribuição da riqueza. Sabia quais bens de A poderiam ser trocados por bens de B.

4. Ele estudava a geografia e os meios de locomoção. Sabia o que podia ser transportado do ponto A para o ponto B

5. Ele inventou, assim, a própria economia. Estabeleceu padrões comparativos para os bens e, depois, constituiu as referências monetárias primitivas.

Ora, se este artigo teoricamente versa sobre negociação, por que será que estou tratando exclusivamente de vendas e vendedores?

A razão é simples. A arte da negociação nasceu com os vendedores. E os vendedores nasceram com a arte da negociação.

Naqueles tempos severos das primeiras comunidades humanas, os conflitos tinham quase sempre uma motivação objetiva. Os clãs disputavam fontes de água, acesso a rebanhos selvagens ou fontes básicas de matérias-primas. Portanto, a primeira guerra surgiu do desequilíbrio entre a demanda e a disponibilidade de recursos naturais.

Os primeiros negociadores tiveram de buscar soluções para uma exploração compartilhada do espaço físico. O conciliador da aurora da civilização vendeu uma ideia: o benefício da paz. A turma de A passou a colher as tâmaras do lado norte da montanha. A turma de B foi convencida a fazer o mesmo do lado sul.

Esses diplomatas ancestrais logo perceberam que não bastava resolver problemas isolados. Os humanos tinham variados desejos e inúmeras necessidades, cada vez mais complexas. Dessa forma, de tempos em tempos, o ódio se alastrava, eclodia um conflito e as pessoas morriam aos montes.

Havia quem tinha peles de sobra e quem morria de frio. Os bem-trajados, muitas vezes, viviam doentes por conta da desnutrição. Inquietos, cobiçavam as frutas suculentas e vitaminadas de seus vizinhos pelados.

Para evitar a guerra, as boas cabeças primitivas investiram numa mágica solução integral: o comércio. Alguém teve a feliz ideia de trocar peles de urso por cestas de morangos silvestres e maçãs. Sucesso estrondoso!

O comércio e a paz

Por isso, costumo dizer que a negociação se constitui na maneira mais efetiva e democrática de se promover a concórdia. Quem não negocia, vive permanentemente na insegurança e na dificuldade. E ouso afirmar que o comércio se apresenta como uma das mais formidáveis expressões da civilidade.

Toda negociação nasce da busca por uma simetria. Isso quer dizer que as partes buscam uma forma de dividir o benefício gerado na troca de compromissos ou produtos.

Além disso, todo acordo legítimo tem por base a liberdade. Os interessados podem dizer “sim” ou “não” a cada proposta. E exercitam-se na dinâmica do debate, alterando posições de acordo com os argumentos dos oponentes ou parceiros.

Houve um tempo em que o fornecedor detinha o maior poder de barganha. Numa época de fome, por exemplo, o dono de um saco de batatas fazia a regra. Se não fosse assassinado pelos famintos, certamente auferiria gordos lucros no processo de venda.

A evolução e a multiplicação dos meios de produção, entretanto, aumentou o número de fornecedores e instituiu a livre concorrência. Hoje, na maior parte dos segmentos, há muitas pessoas ou corporações que oferecem o mesmo produto ou serviço.

No imaginário popular, portanto, existe a crença de que o poder numa negociação comercial deslocou-se para o cliente. Acredita-se que ele pode ou não comprar, e que isso define a história das trocas econômicas.

Trata-se de ledo engano. Quem vende também tem seus trunfos, escorados em localização, velocidade, qualidade e customização. Se temos demandas cada vez mais singularizadas, é certo que as companhias capazes de oferecer o singular também podem estipular condições especiais para o estabelecimento de negócios.

Elas podem, por exemplo, determinar preços que premiem o ineditismo, a eficiência, o rendimento e o estilo diferenciado de seus produtos.

Portanto, o poder da negociação, hoje, mora na credibilidade. E isso vale para quem vende e para quem compra. Tem poder quem vende o melhor e entrega com rapidez. Tem poder quem compra e, na sequência, cumpre a promessa de pagamento.

Mas como gerar credibilidade? Prestando atenção ao básico, ao comoditizado, mas tendo cuidado total com os detalhes. São eles que constroem ou dizimam uma relação. Isso vale para acordos conjugais, negócios e disputas diplomáticas.

Vale lembrar o caso de um espetacular vendedor de “ações da paz”. Trata-se de Jimmy Carter, que presidiu os Estados Unidos entre 1977 e 1981. Por conta de seus esforços, celebrou-se, em 1978, o Acordo de Camp David, entre Israel e Egito.

Carter também assinou um tratado para devolução do canal entre-oceanos ao Panamá, estabeleceu relações diplomáticas com a China e convenceu a então União Soviética a assinar um protocolo para a redução de armas nucleares. É lícito dizer que muito da relativa paz da qual gozamos hoje se deve ao trabalho desse líder democrata.

Nos EUA, entretanto, o simpático presidente nem sempre tem seus méritos reconhecidos. Onde teria pecado? Nos detalhes.

Carter não constituiu uma linha de comunicação rápida, efetiva e consistente com o público norte-americano. Em 1979, foi acusado de ineficiência no caso do sequestro de funcionários da embaixada norte-americana em Teerã, no Irã. Nesse mesmo ano, muitos de seus críticos consideram que não reagiu com o devido rigor no caso da invasão do Afeganistão pelos soviéticos.

Pronto! Os detalhes foram fundamentais para tirar o brilho da figura do ex-presidente, que até hoje se dedica a causas humanitárias e serve de mediador em conflitos internacionais. Segue sendo um astucioso vendedor da paz.

Negócios no campinho de várzea

No âmbito corporativo, cada vez mais o detalhe faz a diferença. Por isso, os estudos de reputação levam em conta uma longa lista de categorias, que incluem qualidade de produtos e serviços, atendimento, velocidade nas entregas, apoio pós-venda, comunicação com o público, ambiente interno de trabalho, resultados financeiros, relação com acionistas, preocupação com o meio-ambiente e responsabilidade social.

Antigamente, o caixeiro-viajante descia do trem e valia-se somente de sua lábia para convencer as clientes da qualidade de seus lenços de seda. Hoje, o vendedor gabaritado precisa conhecer a complexa malha de relações entre a empresa que representa e o cliente. Afinal, quem compra sabe muito mais e não se deixa enganar por conversa fiada. É preciso mostrar virtudes e prová-las.

Quando eu tinha sete anos, meu pai vendeu seu bar e passamos por um período de dificuldades financeiras. Atrás de casa, na Vila Carioca, em São Paulo, havia vários campos varzeanos de futebol, entre eles o Flor da Vila.

Um dia, resolvi pular o muro e tentar vender os deliciosos bolinhos de bacalhau preparados por minha mãe. Então, tracei uma estratégia de abordagem. Primeiramente, resolvi ir até os possíveis consumidores, para que não precisassem se desligar do ludopédio. E isso já se constituiu um diferencial importante.

Depois, deliberei arrumar os bolinhos numa bandeja, sobre uma toalha bem alva, o que ressaltava nossa preocupação com a higiene. Por fim, procurei levar os lotes logo após a fritura, quando a fumacinha ainda pudesse seduzir os torcedores pelo olfato. Resultado: vendi muito!

Lógico, os bolinhos eram deliciosos, e me deixam com água na boca ainda hoje, 45 anos depois. Mas é certo que os detalhes fizeram diferença e garantiram a confiança no jovem vendedor.

Recordo-me que, em alguns jogos, acabava-se gerando uma demanda reprimida. Minha mãe, num humilde fogão doméstico, não dava conta de produzir os bolinhos que eu podia vender.

Agora, fica a pergunta: quanto se cobrava pelo bolinho? Em nosso caso particular, era preciso fazer muita conta. Somávamos os valores da farinha, dos ovos, do sal, do bacalhau, dos temperos, da água, do gás, da lavagem constante das toalhinhas e também do esforço humano. O preço contemplava também o know-how culinário diferenciado de minha mãe.

Mas essa conta, no fim, tinha um limite de aplicação: a disponibilidade financeira dos torcedores do campinho. Obviamente, não era possível reproduzir o valor que seria cobrado num conceituado restaurante lusitano. Estabelecia-se, assim, um preço negociado, que levava em consideração o investimento, nossa expectativa de lucro e a capacidade de investimento do povo da arquibancada.

A atenção aos detalhes e ao bom senso, pois, garantem a credibilidade de um negociador. Ele pode estar se dedicando a um importante acordo de governabilidade em Chipre ou vendendo pastéis na feira-livre. As regras são, basicamente, as mesmas.

Convém frisar que o fracasso aguarda o negociador que atende a todas as exigências do contendor. Mas o mesmo ocorre àquele que as despreza na totalidade. O bom diplomata busca convergências.

Comecei minha vida como vendedor de bolinhos. Depois, cheguei a bater de casa em casa, oferecendo enciclopédias da Editora Bloch… Aos poucos, fui mudando de vida. Estudei, virei professor, gestor de empresas, palestrante e escritor.

Mesmo assim, admito que nunca deixei de lado a atividade de negociante. Agora, vendo mais ideias e conhecimentos. Mas sigo buscando uma visão clara sobre os detalhes de cada operação. Tenho olhos no produto, no cliente e, principalmente, em mim mesmo.

Mirando o passado, recordo um episódio interessante. Em certo momento, minha então futura sogra inquiriu a filha: “Mas você vai se casar com um vendedor?” Inconformada e incrédula, ela manifestava uma ideia cristalizada sobre esse tipo de profissional. Era tido como um chato e embromador, que não tinha ganhos fixos.

O tempo passou e os vendedores se converteram em negociadores, figuras vitais às corporações. Valorizados pelos gestores, são personagens-chaves da economia.

Repaginados, aprimoraram suas virtudes de comunicação e desenvolveram o conhecimento técnico daquilo que oferecem. Ao mesmo, são radares móveis das empresas, captando os desejos do consumidor e as tendências do mercado. São, portanto, pesquisadores de campo cada vez mais qualificados.

Para os moços da área que pretendem se casar, portanto, vale o conselho: alterem a denominação profissional. Nos jantares com o sogro e a sogra, apresentem-se como negociadores. Afinal, este é, hoje, novamente, o melhor termo para designar os homens de vendas. Outra dica: à mesa, comportem-se bem e não descuidem dos detalhes. Negociem a própria imagem.

 

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Michael Jackson, Mayo, Drucker e você!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Artigo publicado pela HSM online.

A trilha da grande aventura humana tem sido historicamente marcada pela tensão entre o ser e o fazer.  Não importa se o agente produtivo é um empreendedor de sucesso ou um humilde operário. Em dado momento, ele vai se perguntar: será que meu modo de fazer está alinhado com meu modo de ser?

Vamos usar um exemplo pop para clarear as ideias. Michael Jackson era um homem, um artista e, ao mesmo tempo, uma formidável empresa global.

Era também um eterno menino, que gostava de brincar, receber e dar carinho, alegrar as pessoas, cultivar amizades, dançar e criar. Seu jeito de fazer as coisas estava expresso, por exemplo, emMoonwalk, o passo de dança mais famoso do mundo, em que seus pés pareciam deslizar magicamente para trás.

Desses dons, interesses e habilidades, ninguém tinha dúvida. E o artista desempenhava suas funções com maestria.

Agora, qual era a missão corporativa de Michael? Isso ninguém sabe ao certo até hoje.

Tudo teve início com uma relação conturbada com o pai, um chefe super rigoroso e intransigente. Prosseguiu com uma infância abortada em nome do interesse comercial. O menino prodígio sofria e, paralelamente, amealhava milhões e milhões de dólares para a indústria do espetáculo.

Michael Jackson foi a maior marca de todos os tempos no show-business. Mas, afinal, qual era seu objetivo? Parafraseando Caetano Veloso, "seu existir", afinal, a que se destinava?

Escala e compromisso

Para discutir o assunto, vamos retroceder no tempo e recorrer à chamada antropologia dos negócios. Como, afinal, surgiram as organizações? E para quê?

As primeiras empresas comunais e territoriais foram assentamentos agrícolas na Mesopotâmia. Essas proto-corporações tinham uma missão claríssima: produzir comida para sustentar os lavradores e suas famílias, mesmo quando a atividade estava sob controle do déspota local.

E qual era a função dos associados? Arar a terra, separar sementes, irrigar a plantação, retirar folhas atacadas por pragas, colher as safras e estocar os alimentos produzidos.

Percebe-se que as funções estavam perfeitamente alinhadas com a missão. E mais: as pessoas tinham perfeita consciência do que faziam e da utilidade de seus esforços. Elas acompanhavam todo o processo produtivo, da escolha do terreno até os rituais de agradecimento às divindades que garantiam a chuva.

Muito tempo depois, quando os camponeses foram para o lado de dentro dos feudos, ainda existia uma ideia geral da função e da missão laboral.

Além de produzir comida, esse tipo de esforço garantia a proteção oferecida pelo suserano. As pessoas podiam não estar satisfeitas com as exaustivas jornadas de trabalho, mas o ser e o fazer mantinham uma relação concreta de complementaridade.

Então, veio a Revolução Industrial… Foi, de certa forma, uma maravilha, e permitiu que começássemos a erguer o mundo das comodidades contemporâneas. Ao mesmo tempo, no entanto, instituiu-se um padrão de desconexão entre o ser e o fazer, entre a missão e a função.

O labor ganhou um sistema seriado, em que se privilegiava a escala. Em pouco tempo, criou-se um divórcio entre quem produzia e quem consumia. Um tecido fabricado em Manchester, na Inglaterra, virava o colete de um oficial da marinha britânica na Índia.

Mas não parou por aí. Os homens, mulheres e crianças que entregavam mais da metade de suas vidas aos teares passaram a desconhecer o próprio empreendimento em que trabalhavam. Frequentemente agenciados por capatazes, muitos jamais mantinham contato com o contratante do serviço.

Se a função gerava frustração e infelicidade, também é certo que produziu riquezas numa escala inédita. O objetivo era eliminar o caráter artesanal da confecção e, assim, fazer cada vez mais com o menor volume possível de recursos.

O trabalho de Frederick Taylor, já no final do Século 19, rendeu equações de maximização da produção. Logo, nas fábricas da Ford, a ordem era especializar. Cada um se ocupava de uma pequena parte do automóvel. Por serem repetitivos e relativamente simples, os procedimentos eram rápidos. Como resultado disso, a corporação inundou o mundo com milhões de exemplares de seus veículos, como o Ford-T. Até 1.927, já tinham sido produzidos 15 milhões deles.

Não é preciso dizer que as funções rotineiras e repetitivas do chão de fábrica foram transportadas para os escritórios administrativos. Os filmes norte-americanos das primeiras seis décadas do Século 20 mostram esses ambientes de produção seriada, marcados por funções preponderantemente automatizadas.

Vale lembrar o filme “Se meu apartamento falasse” (1960), em que C.C. Baxter, vivido por Jack Lemmon, aparece meio desconsolado num vasto escritório que mais parece uma linha de produção. Para enfatizar o ambiente sufocante no trabalho, o diretor Billy Wilder utilizou até mobiliário com escala de tamanho alterada.

Mas voltemos um pouco no tempo. Estudos de administração científica eram realizados com frequência nas fábricas norte-americanas nas décadas de 10 e 20. Em 1.927, por exemplo, o sociólogo australiano Elton Mayo assumiu a chefia das pesquisas sobre comportamento e produtividade que vinham sendo realizadas na Hawthorne Works, da Western Electric, em Illinois.

Durante o estudo, Mayo descobriu que a lógica científica da eficiência podia ser, em parte, contestada. Regras, divisão de tarefas e procedimentos padronizados acabavam por ter uma influência de caráter limitado na produtividade. Um conjunto complexo de fatores determinava os resultados de cada unidade fabril.

Mayo abordou o problema em sua obra The Human Problems of an Industrial Civilization, de 1.933. Para ele, os fatores psicológicos eram tão importantes quanto os fatores fisiológicos. A competência e a dedicação se apoiavam em regras informais do grupo, que tinha seus próprios e silenciosos meios de controle do pessoal.

Por fim, o estudioso concluiu que o indivíduo satisfeito no trabalho destacava-se por ter percepção de sua “função social”. Isso queria dizer que os mais felizes e realizados compreendiam e aceitavam a missão de que eram incumbidos.

A finalidade da empresa

Ora, mas o que, de fato, define uma empresa? E será que isso é mesmo importante? Peter Drucker era sempre indagado sobre o tema e, certa vez, forneceu ao mundo dos negócios uma resposta antológica.

"Uma empresa não se define pelo seu nome, estatuto ou produto que faz; ela se define pela sua missão. Somente uma definição clara da missão, a razão de existir da organização, torna possíveis, claros e realistas os objetivos da empresa."

Certos analistas modernos têm focado a missão da empresa na obtenção de lucros. O mesmo Drucker, porém, discordou com sabedoria num texto publicado em 1.974, em Management: tasks, responsibilities, practices.

Sem papas na língua, Drucker afirma que o lucro e a lucratividade são cruciais, até mais para a sociedade do que para a empresa individual. No entanto, segundo ele, a lucratividade não é a finalidade, mas sim o fator limitante da atividade empresarial. O lucro, dessa forma, apresenta-se tão somente como a evidência incontestável da validade de um empreendimento.

Para o mestre, a ideia de motivação por conta do lucro é equivocada e prejudicial. Criou, por exemplo, a crença de que existe contradição entre o lucro e a capacidade da empresa em oferecer autêntica contribuição social.

Ainda segundo Drucker, não se pode compreender o que é uma empresa sem que sua finalidade seja estabelecida.

“De fato, ela (a finalidade) deve situar-se na sociedade, já que a empresa comercial é um órgão da sociedade. Só existe uma definição válida para a finalidade de uma empresa: criar um consumidor”.

Logicamente, o pensamento de Drucker se tornaria mais complexo no decorrer dos anos, mas ele basicamente se manteve fiel a essa doutrina. Para ele, o consumidor nunca considera como valor o produto em si, mas sua utilidade, o beneficio que lhe fornece. E, se a finalidade de uma empresa é criar um consumidor, seus atores precisam desenvolver funções em duas áreas básicas: marketing e inovação.

Nem é preciso expor aqui a visão integral que Drucker tinha do marketing e seu interesse em processos de aprimoramento permanente de serviços e produtos.

Então, cabe agora unir as pontas. Será que hoje os personagens do teatro produtivo, do motorista ao CEO, têm mesmo consciência da finalidade da empresa? Será que a missão expressa nos catálogos institucionais contempla esse interesse em atender as necessidades da sociedade? E será que as pessoas se lembram da missão enquanto varrem o jardim da fábrica, atendem telefones, preparam um layout ou assinam um contrato de exportação?

Uma olhada rápida nas cinco forças elencadas por Michael Porter já concederia a um engenheiro de produção, por exemplo, a ideia da importância estratégica dessa consciência ativa e integral, bem como da exigência de uma visão inovadora e de uma aposta permanente no desenvolvimento de novas soluções para os problemas do consumidor. Sem consciência e comprometimento, a batalha competitiva está perdida antes do primeiro movimento dos players do mercado.

Talvez o divórcio entre função e missão tenha início já na elaboração dos planos de negócio, muitos deles dirigidos para uma inserção tática e não estratégica no mercado. Se a ideia for calcada em operações relâmpago de coleta de lucros, dificilmente se desenvolverá uma cultura corporativa voltada para a construção consistente de hábitos e valores.

Na nova economia, as empresas que mais crescem são justamente aquelas que contam com o comprometimento consciente das pessoas. Não falo do velho e surrado conceito de “vestir a camisa”, mas da capacidade que a corporação tem de definir uma missão, exibi-la claramente, angariar adesões e constituir funções que estejam sintonizadas com a finalidade da empresa.

O ponto de equilíbrio entre função e missão, portanto, reside num tripé de conceitos: exposição inequívoca da finalidade do negócio, construção de um conjunto de funções dinâmicas que possibilitem a conquista de objetivos e, por último, adesão livre e espontânea ao projeto da empresa. As funções precisam estar harmonicamente agregadas aos processos, e as pessoas precisam saber disso, todos os dias.

Quem não se sente parte do projeto acaba por não compreender sua mecânica. Esses excluídos estruturais podem virar dissidentes ou até sabotadores. São os que repetem procedimentos alienadamente, como os operários de Tempos Modernos (1.936); são os que desprezam a natureza do empreendimento; são os que se negam peremptoriamente a criar.

Eis o grande desafio das empresas vivas e mutantes neste novo século (e também o seu, caro leitor): ganhar desempenho nas funções, mas atribuir sentido às missões. Se lograsse compreender o binômio “ser-fazer”, o empresário e mega-star Michael Jackson talvez tivesse ganho mais algumas décadas para afagar nossos ouvidos e corações. Cedo demais abandonou sua missão.

 

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